João Coimbra: “O Miccoli pedia-me sempre para ir buscar mais uma mousse de chocolate, a fingir que era para mim. Mas quem a comia era ele”

João Coimbra: “O Miccoli pedia-me sempre para ir buscar mais uma mousse de chocolate, a fingir que era para mim. Mas quem a comia era ele”

Entrevistas

João Coimbra: “O Miccoli pedia-me sempre para ir buscar mais uma mousse de chocolate, a fingir que era para mim. Mas quem a comia era ele”

Em entrevista ao paraeles, o veterano médio fala sobre a sua preenchida vida no Luxemburgo, onde joga a trabalha, e recorda os tempos do início da carreira na Luz: a estreia diante do V. Setúbal ao entrar para o lugar de Miccoli e a convivência com outras grandes estrelas, como Simão, Petit, Nuno Gomes Luisão.

Artigo de André Cruz Martins

10-03-2019

A 30 de abril de 2006, um jovem médio prestes a completar 20 anos fazia a estreia pela equipa principal do Benfica, entrando para o lugar do consagrado Miccoli numa partida com o Vitória de Setúbal. Tido na altura como uma das grandes promessas do futebol jovem dos encarnados, João Coimbra tinha sido campeão da Europa de sub-17 em 2003 e na Luz parecia acreditar-se muito no seu potencial, pois na altura o clube raramente lançava jovens da formação.

No entanto, os tempos eram muito diferentes dos atuais e a aposta em João Coimbra não prosseguiu. É verdade que ainda conseguiu realizar 17 jogos na época seguinte, mas apenas três foram como titular, nenhum deles na I Liga. Não mais voltou a vestir a camisola do Benfica, mas acabou por construiu uma boa carreira, ao serviço de clubes como Nacional, Gil Vicente e Estoril.

Nas últimas épocas esteve em equipas do Campeonato de Portugal (terceiro escalão) e viveu duas experiências no estrangeiro, primeiro na Roménia, ao serviço do Rapid Bucareste e depois na Índia, onde representou os Kerala Blasters.

Atualmente, joga no amador campeonato do Luxemburgo, ao serviço do Mondorf-les-Bains e também trabalha como lojista. Quando terminar a carreira, gostaria que o futuro passasse pelo futebol e já se preparou para isso, tendo um curso de dirigente e o I Nível de treinador. Regressar ao curso de Medicina, que há dez anos deixou a meio, é uma hipótese mais remota.

Foi jogar para o Luxemburgo no início desta época. Como está a correr a experiência?
Está tudo a correr da melhor forma. A prioridade continua a ser o futebol e tenho-me sentido muito bem ao serviço do Mondorf-les-Bains. Adaptei-me bem ao futebol local e tenho gostado muito do campeonato.

Por que razão decidiu emigrar para o Luxemburgo?
Saí do Trofense no final da última época e, depois de ter tido uma conversa com Paulo Gomes, o treinador do Mondorf, em que ele me explicou o projeto, cheguei a acordo com o clube.

Sente que está num nível acima da generalidade dos jogadores do campeonato luxemburguês?
Não sinto que seja melhor nem pior. A verdade é que nos últimos anos joguei no Campeonato Nacional de Seniores, por isso já não estava propriamente habituado a jogar a um nível muito elevado. Para dizer a verdade, fiquei surpreendido com a qualidade de jogo que encontrei na Liga luxemburguesa.

“Fiquei surpreendido com a qualidade de jogo que encontrei na Liga luxemburguesa”

No entanto, ao que sabemos o campeonato ainda é amador. Confirma?
Sim, é verdade, mas várias equipas já são praticamente profissionais. E esta época ficou marcada pela estreia de uma equipa do Luxemburgo na fase de grupos da Liga Europa [n.d.r: o Dudelange]. O campeonato tem crescido muito e ganho cada vez mais visibilidade, até devido à proximidade de países com tradição no futebol, como a Alemanha, a França e a Bélgica.

E como surgiu a hipótese de trabalhar como lojista?
Quando cheguei a acordo com o clube os seus responsáveis disseram-me que se gostassem de mim e se percebessem que eu me estava a adaptar bem ajudavam-me a arranjar trabalho. E foi o que aconteceu, com o diretor desportivo do clube a perguntar-me se eu gostaria de trabalhar numa das suas lojas de produtos ortopédicos Aliás, a maior parte dos jogadores aqui no Luxemburgo também trabalha. E sem dúvida que é uma grande ajuda, pois o salário mínimo no país é muito elevado, praticamente de 2 mil euros.

“Salário mínimo de 2 mil euros é grande ajuda”

Já consegue comunicar bem com as pessoas aí no Luxemburgo?
Sim, já me desenrasco com o Francês e sinto que as pessoas me percebem.

Gosta de viver no Luxemburgo?
Bastante, essencialmente porque é um país que concede muitos direitos às pessoas que aqui vivem. Para dar um exemplo, se eu e a minha esposa formos ao médico, pagamos as consultas mas depois o Estado reembolsa-nos quase na totalidade. Eu vivo mesmo ao lado da fronteira com França, em Esch-Sur-Alzette, e aqui há mesmo muito portugueses, parece que estamos numa cidade portuguesa.

O que gosta menos?
Ao domingo está tudo fechado e durante a semana as lojas fecham bastante cedo. Às oito da noite já nada se passa por aqui. E no inverno neva muito, por isso eu e a minha família estamos muito tempo “enfiados” em casa.

“Às oito da noite já nada se passa por aqui”

As pessoas são hospitaleiras?
Sinceramente nem dá para perceber muito bem, pois aqui é tudo muito casa-trabalho-casa, eu incluído. As pessoas mais idosas falam muito luxemburguês e alemão e quando percebem que eu não falo esses idiomas viram logo os olhos. Não sei se isso quer dizer algo coisa sobre o povo daqui, talvez seja uma possível indiferença pelos estrangeiros, mas a verdade é que eu não tenho razões de queixa e, volto a realçar, tenho sido muitíssimo bem tratado pelo meu clube.

Como está o curso de Medicina?
Parado (risos). Deixei-o a meio, há uns dez anos. Tenho três anos feitos e parei porque nem conseguia dedicar-me a 100 por cento ao futebol, nem ao curso. E, claro, sempre dei prioridade ao futebol. Ainda pago as propinas todos os anos, com a esperança de ainda voltar aos estudos, mas tenho noção de que não só me falta muito para terminar, como também tudo o que aprendi “já foi”.

“Medicina? Ainda pago as propinas”

Entretanto, também já tirou um curso de dirigente desportivo. Vê-se a abraçar um lugar nessa área?
Tirei esse curso na Universidade Lusófona, era um curso metade presencial, metade tirado na Internet. Não sei se um dia serei dirigente, mas achei interessante estar preparado caso essa possibilidade surja. E também já tenho o Nível I do Curso de Treinador. Quase de certeza que o meu futuro passará pelo futebol, que continua a ser a minha grande paixão e é bom ter várias possibilidades em carteira.

Voltemos uns anos atrás, mais concretamente até ao dia 30 de abril de 2006. Certamente ainda se lembra do que aconteceu neste dia.
Claro, foi o dia da minha estreia na equipa principal do Benfica, entrei para o lugar do Miccoli num jogo com o Vitória de Setúbal. O jogo estava quase a acabar e nem sequer cheguei a tocar na bola. Curiosamente, quando ia finalmente tocar na bola, o árbitro apitou para o final do jogo. Ainda bem que não cheguei a tocar na bola, pois só estávamos a ganhar por 1-0 e eu estava muito nervoso (risos).

“Ainda bem que não cheguei a tocar na bola”

Foi bem recebido pelas estrelas do Benfica? Quem recorda com saudade nas duas épocas em que fez parte do plantel?
Tanta gente: o Rui Costa, o Petit, o Simão, o Miccoli, o Nuno Gomes, o Luisão e o Geovanni. Receberam-me todos muito bem e hoje em dia ainda falo com alguns deles. Há uns dois meses o Miccoli começou a falar comigo no Instagram. No início até pensei que era “tanga”, alguém com um perfil falso, mas depois lá percebi que era mesmo ele. Também falo bem com o Simão e com o Nuno Gomes e tenho muito orgulho por eles me considerarem um amigo. Afinal de contas, eu era “o miúdo” e o facto de passados tantos anos ainda falarem comigo demonstra bem os grandes seres humanos que eles são.

Certamente tem várias histórias curiosas desses tempos no Benfica. Quer partilhar alguma com os nossos leitores?
Posso falar de uma história a envolver o Miccoli. Ele gostava muito de mim e durante as refeições falávamos muito. Ele sentava-se sempre de costas para a mesa da equipa técnica e pedia-me sempre que fosse buscar uma mousse de chocolate, a fingir que era para mim. Mas quem a comia era ele. O Rodolfo Moura [elemento do departamento médico] estava sempre em cima dele para que fizesse dieta.

“Ia sempre buscar mousse para o Miccoli”

Petit também era conhecido por ser muito brincalhão. Tem algum episódio curioso com ele que queira partilhar?
Eu gostava muito de usar aqueles boxers largos e com bonecos. Certo dia, chego ao balneário e vejo os meus boxers todos cortados, no meio do balneário. Pela cara que o Petit fez percebi logo que tinha sido ele o autor da brincadeira.

Realizou 17 encontros na equipa principal na temporada de 2006/07 mas depois não voltou a ter oportunidade de jogar pelo Benfica. O que aconteceu?
Eu não me posso queixar, pois tive oportunidades numa altura em que ninguém da formação do Benfica jogava na equipa principal. A culpa talvez tenha sido exclusivamente minha e não consegui agarrar de vez a hipótese de me fixar no plantel principal. A verdade é que também eram tempos diferentes do atual. O Benfica nem sítio fixo tinha para treinar, andávamos com os cestos dos equipamentos de um lado para o outro. Naquela altura não se dava importância à formação e hoje em dia até jogos de sub-7 passam na televisão. No meu tempo era impensável um jogador ser vendido por 15 milhões de euros sem sequer ter jogado na equipa principal, como aconteceu com o Bernardo Silva.

“O Benfica nem sítio fixo tinha para treinar, andávamos com os cestos dos equipamentos de um lado para o outro”

Tem acompanhado com atenção o percurso do Benfica esta época?
Sim, claro, sou benfiquista e tento sempre assistir aos jogos. Estou a gostar muito do trabalho do Bruno Lage e destaco o lançamento de muitos jovens. Aliás, isso tem sido uma prática do clube nos últimos anos, o que possibilita a que um jogador como o João Félix chegue muito mais tranquilo à equipa principal. Se no meu tempo houvesse esta política, muitos mais jogadores da formação teriam agarrado a oportunidade.

O que acha de João Félix?
É um craque, que ainda por cima marca muitos golos. Espero que a fama não lhe chegue à cabeça e tenho quase a certeza de que não irá chegar, pois vê-se que é muito maduro para a idade. Agora é deixá-lo crescer e espero que fique mais alguns anos no Benfica.

Acredita que o Benfica pode ser campeão?
Sim, a equipa ganhou outro ânimo com o Bruno Lage e aquela vitória por 4-2 em Alvalade foi fantástica. A época até começou muito bem com o Rui Vitória, mas estranhamente, depois da vitória com o FC Porto, a equipa desceu muito de rendimento e já se sabe como é: os adeptos começaram a não ter paciência e o Rui Vitória passou a ser muito criticado e acabou por sair. Feliz mente, tudo acabou por melhorar.

Artigo de
André Cruz Martins

10-03-2019



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