Carlos Xavier: “Estava de férias. Pensava que ia renovar, mas o Sporting chamou-me para me dispensar”

Carlos Xavier: “Estava de férias. Pensava que ia renovar, mas o Sporting chamou-me para me dispensar”

Entrevistas

Carlos Xavier: “Estava de férias. Pensava que ia renovar, mas o Sporting chamou-me para me dispensar”

Carlos Xavier, o antigo médio com pés de veludo, recorda momentos marcantes da carreira e aborda a sua nova vida como diretor na formação do Sporting.

Artigo de André Cruz Martins

04-10-2018

Dele costuma dizer-se muitas vezes que passou ao lado de uma grande carreira. Não será totalmente verdade, pois de alguém que esteve 12 anos como sénior do Sporting ao mais alto nível e mais três a brilhar na Real Sociedad só se pode dizer que conseguiu construir uma excelente carreira. É no entanto indiscutível que Carlos Xavier, o antigo médio com pés de veludo, poderia ter chegado mais longe.

Nesta conversa, o antigo internacional português recorda momentos marcantes do seu tempo de jogador, elege Malcolm Allison como o melhor treinador que teve e não deixa de lamentar a forma como terminou a carreira no clube do coração, quando ainda estava na posse de todas as suas capacidades. Hoje em dia é diretor técnico do pólo EUL do Sporting, orientando miúdos entre os 6 e os 13 anos de idade. E não duvida de que os leões vão voltar a liderar o futebol de formação em Portugal.

Tinha 17 anos quando em 1979 chegou ao Sporting. Como é que surgiu a hipótese de representar o clube leonino?
Estava a jogar no Casa Pia e um amigo meu disse-me que o Sporting estava a fazer captações. Lá fomos os dois e acabei por ficar.

Na altura já era adepto do Sporting?
Não. Aliás, nem era muito de ligar ao futebol. Só fui aos treinos de captação porque esse meu amigo me falou disso. Mas pouco depois de chegar ao Sporting e ao aperceber-me da grandeza do clube fiquei sportinguista do coração.

Foi fácil a adaptação a uma nova realidade?
Sim, acabou por ser fácil, mas porque me apliquei desde o primeiro dia. Um ano depois, ainda como júnior, já estava na equipa principal e fiz a estreia treinado pelo mister Radisic. Ainda fiz alguns jogos essa época [seis no total].

“Allison? Fiquei logo a gostar do homem”

Na época seguinte foi campeão, numa equipa treinada por Malcolm Allison. Gostou de ser orientado por este carismático treinador inglês?
O Allison foi o melhor treinador que tive em toda a minha carreira. Posso contar uma história curiosa que se passou logo no início da época. Havia alguns juniores e jogadores com primeiro ano de sénior que estavam dispensados, mas o Allison disse “não senhor, quero vê-los a treinar”. Eu fazia parte desse grupo e ele colocou-nos no meio do campo, apenas a realizar passe e controlo de bola. Ele ia dizendo “quero este, este e este”. Felizmente, acabei por ficar. Obviamente que fiquei logo a gostar do homem.

Fez quase toda a carreira como médio, mas nessa época de 1981/82 foi líbero. Gostou de jogar nessa posição?
Apostar num jovem de 20 anos para jogar na posição de libero não era fácil. Mas essa opção mostrava como Malcolm Allison era visionário. Gostei de jogar a libero e as coisas correram bem.

Dizia-se que Allison dava muita liberdade aos jogadores. Confirma?
Liberdade com responsabilidade, um hábito inglês. Ele nem queria saber se tínhamos saído na noite anterior, desde que rendêssemos no treino. Mas atenção, quem facilitasse nos treinos, estava tramado.

É verdade que os almoços antes dos jogos em casa eram pesados?
Os jogos eram às três da tarde e juntávamo-nos no estádio para almoçar por volta das 11h30. Podíamos comer tudo o que quiséssemos, desde bifes, a batatas, arroz, etc. Ficávamos cheios de força e depois corríamos os 90 minutos.

“Ainda sou um dos dois melhores estrangeiros da Real Sociedad”

Depois de dez anos no Sporting, com uma época de empréstimo à Académica pelo meio, mudou-se para a Real Sociedad, em 1991/92. Como correu a experiência no clube basco?
Muito bem, desde o início percebi que tinha chegado a um clube espectacular e a um campeonato muito competitivo. Numa das épocas ganhei o prémio de melhor assistente do País Basco da Liga espanhola e ainda hoje sou recordado como um dos dois melhores jogadores estrangeiros da história da Real Sociedad. O John Toschack, que era o treinador da Real Sociedad, já me tinha tentado levar, mas o Sousa Cintra só deixou que saísse em 1991. Fui eu e o Oceano e adaptámo-nos muito bem ao clube e a San Sebastian. Ter saído apenas com 29 anos acabou por ser positivo, pois estava no auge e com grande maturidade.

Em que posição jogou com mais frequência na Real Sociedad?
Fui quase sempre número dez. O Toschack até me tinha utilizado muitas vezes a lateral direito no Sporting, mas quando cheguei a San Sebastian perguntou-me: “Carlos, em que posição queres jogar?” Eu respondi-lhe que queria ser dez e ele não hesitou e colocou-me logo a jogar nessa posição.

“Chamaram-me a Lisboa para me dispensar”

Depois de três temporadas de grande sucesso na Real Sociedad regressou ao Sporting, em 1994/95. Uma época que terminou com um jejum de 13 anos do clube sem conquistar campeonato ou Taça de Portugal.
Sim, ganhámos a Taça de Portugal, numa final com o Marítimo. Um ano depois, ganhámos a Supertaça ao FC Porto em Paris, por 3-0. Tínhamos uma bela equipa, com jogadores como o Figo e o Balakov e só foi pena não termos conseguido ganhar o campeonato.

Fez apenas duas épocas no Sporting e aos 34 anos terminou a carreira. Na altura ainda estava em boa forma, por que razão decidiu parar?
Não foi eu que decidi. Estava de férias no Algarve. Pensava que me iam propor a renovação mas chamaram-me a Lisboa para me dispensar.

Qual foi a justificação desse responsável do Sporting?
Disse-me que o treinador Robert Waseige, que tinha acabado de chegar, viu uma cassete com imagens minhas, não gostou e dispensou-me. Curiosamente, uns tempos depois encontrei o Waseige e ele disse-me que não entendeu a minha saída. Ou seja, foram os dirigentes do Sporting que assim decidiram e como eu não queria jogar noutro clube que não o Sporting, decidi abandonar. Naquela altura não havia as reformas douradas na China e nos Estados Unidos.

“Só tenho de agradecer a Bruno de Carvalho”

Entretanto, regressou ao Sporting em novembro de 2017 Qual é a sua atual função?
Sou o diretor-geral do Pólo EUL, ou seja, das equipas com miúdos entre os 6 e os 13 anos.

Confirma a ideia geral de que o Sporting deixou de ser o melhor clube a trabalhar na formação em Portugal?
Sem dúvida que o Sporting estagnou nos últimos anos, mas queremos rapidamente inverter a situação. Com a qualidade dos miúdos que temos, o futuro será risonho.

Que opinião tem de Frederico Varandas, o novo presidente do Sporting?
Tenho boa impressão. É alguém que consegue construir uma boa relação com os jogadores e isso é importante. Desejo-lhe toda a sorte como presidente do Sporting.

E Bruno de Carvalho, que opinião tem dele?
Sou suspeito para falar de Bruno de Carvalho, pois foi ele que me trouxe de volta para o Sporting. E só tenho de lhe agradecer por isso.

Artigo de
André Cruz Martins

04-10-2018



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