Lovren, a vida do ex-refugiado carrancudo dava um filme

Lovren, a vida do ex-refugiado carrancudo dava um filme

Desporto

Lovren, a vida do ex-refugiado carrancudo dava um filme

Nada que o impeça de ser uma das figuras de uma Croácia que pode estar à beira de fazer história no Mundial de futebol.

Artigo de João Cidra

11-07-2018

Dejan Lovren, defesa central que tem sido um dos esteios da seleção croata no Campeonato do Mundo, tem uma história de vida bastante complicada e que merece a pena ser conhecida. Tudo começou com apenas três anos, quando, devido à guerra, teve de deixar Kraljeva Sutjeska, pequena cidade situada na Bósnia.

“Kraljeva Sutjeska era uma cidade familiar, com 12 mil pessoas e a minha família tinha tudo, até que eclodiu a guerra. Lembro-me da minha mãe pegar em mim e de irmos para o porão. Eu, a minha mãe, o meu tio e a mulher dele ficámos lá sentados durante muito tempo e, depois, fomos de carro até à Alemanha durante 17 horas”, explicou o futebolista do FC Liverpool no seu documentário “Lovren: My Life as a Refugee” (“Lovren: A Minha Vida como Refugiado”, em português).

Passou a viver em Munique, numa pequena casa que chegou a albergar 11 pessoas. E desde muito novo que a sua grande paixão passou a ser o futebol. “Comecei a jogar com cinco ou seis anos com o meu pai, no quintal. Lembro-me de que quando tinha seis ou sete anos fui a um treino do Bayern Munique e tirei fotos com estrelas como Lizarazu e Matthäus. Estava integrado e gostava de viver na Alemanha”, confessou.

No entanto, quando Lovren tinha dez anos, o governo alemão ordenou que os refugiados da ex-Jugoslávia abandonassem o país, uma vez que a guerra já tinha terminado. “Houve um dia que nos disseram que tínhamos dois meses para arrumar as malas e partir. Para mim foi difícil, pois todos os meus amigos estavam na Alemanha. Estava feliz e jogava futebol num pequeno clube em que o meu pai era treinador”, revelou.

Era gozado na escola devido ao sotaque

Lovren foi viver para a cidade croata de Karlovac, a 50 km da capital Zagreb e sentiu grandes dificuldades de adaptação, uma vez que não dominava a língua. “Os miúdos perguntavam-me por que razão o meu sotaque era diferente e na verdade, até hoje, mantenho o sotaque alemão. Tive problemas na escola por causa disso e os meus colegas só não se riam de mim quando eu estava a jogar futebol. Foi devido à forma como jogava que as pessoas me começaram a respeitar”, conta. Começou por representar dois pequenos clubes – o NK Ilovac e o NK Karlovac – e aos 15 anos chegou ao Dínamo Zagreb.

Com apenas 17 anos estreou-se pela equipa principal do Dínamo Zagreb, mas poucos dias depois foi emprestado ao NK Inter Zapreši por duas temporadas, onde fez 50 partidas. Aos 19 anos, voltou ao Dínamo e assumiu-se como um dos melhores jogadores da equipa durante a época e meia seguinte, despertando o interesse do Olympique Lyon, que pagou 8 milhões de euros pelo seu passe. Esteve três épocas e meia no clube francês, com assinalável sucesso.

Em 2013/14 chegou à Liga inglesa através do Southampton, por 10 milhões de e bastou-lhe uma época para convencer o FC Liverpool a pagar 25 milhões de euros. Mantém-se em Anfield desde então e a sua melhor época foi a última, tendo realizado 43 jogos.

Acusado de fazer apologia do regime fascista

Será devido às dificuldades que sempre teve de enfrentar que não é fácil arrancar um sorriso a Dejan Lovren. Nem quando há poucos dias cortou o bolo do seu 29º aniversário mostrou os dentes, pelo menos nas fotos que foram disponibilizadas nas redes sociais. E na conferência de imprensa de antevisão da partida com a Rússia irritou-se com a pergunta de um jornalista do seu país, a respeito do jogo menos conseguido da equipa no jogo dos oitavos de final com a Dinamarca. “Não jogámos em alto nível? Mas temos de jogar sempre ao mais alto nível? Nem o Brasil jogou bem em todos os jogos e nós temos de jogar sempre bem?”, questionou.

Dentro de campo, Lovren também é intratável e tem formado dupla de aço no centro da defesa croata com Domagoj Vida. Fora do campo, não se tem livrado de algumas polémicas, a última das quais depois de ter publicado um vídeo nas redes sociais onde festejou a vitória por 3-0 diante da Argentina ao som da música “Bojna Cavoglave”, da banda Thompson. E o que tem isto de especial? A música ganhou fama por fazer apologia ao regime fascista que existiu na Croácia durante a II Guerra Mundial. A canção contém a frase “za dom spremni”, que em português significa “pela pátria, preparados”, sendo slogan de campanha e uma saudação usada pelos Ustase, movimento revolucionário croata acusado de terrorismo.

Lovren foi traído pela mulher

Casado com Anita Lovren, com quem namora desde os 16 anos, a relação correu sérios riscos há cerca de dois anos, quando a mulher o traiu com o seu grande amigo Dario Torbic. Anita convenceu Dario a voar até Liverpool e os dois encontraram-se várias vezes num hotel da cidade, entretendo-se enquanto Lovren treinava. No auge da polémica, Anita não se conteve e mostrou o dedo do meio a alguns fotógrafos, à saída do centro de treinos do FC Liverpool, depois de lá ter deixado o marido.

Esta situação ocorreu muito perto do Euro 2016 e alguns meios de comunicação social adiantaram que Lovren iria falhar a competição na tentativa de salvar o casamento, indo de férias com Anita precisamente durante a competição. O defesa central ficou de facto de fora do Campeonato da Europa, mas por ter entrado em conflito com o selecionador Ante Cacic. Tudo depois de não ter sido utilizado num jogo particular, o que o levou a confrontar o treinador, que referiu que o central “só voltaria a ser convocado quando aprendesse a ser um jogador de equipa”.

Falhou o Euro 2016 por ter entrado em conflito com o selecionador

Alguns adeptos acusaram o futebolista de ter provocado a situação, de modo a poder ir de férias por alturas do Euro 2016. Lovren desmentiu e garantiu que queria ter sido convocado. O jogador e Anita acabaram por se reconciliar poucas semanas depois, quando se descobriu que ela estava grávida de Lovren. Refira-se que entretanto, o ex-amante de Anita foi acusado de só se ter interessado por ela para deitar mãos ao dinheiro de um possível divórcio, que renderia perto de 4 milhões de euros a Anita. Dario viria entretanto a ser preso, acusado de ter sequestrado duas mulheres.

Em novembro de 2017, Anita voltou a ser notícia, quando foi assaltada em casa, enquanto o jogador disputava uma partida da Liga dos Campeões em Anfiled, com o Maribor. “Infelizmente, ela e os dois miúdos estavam em casa e foi horrível. Faço o meu melhor para ter uma vida tranquila, mas nem sempre depende de mim, porque há pessoas que querem entrar na minha casa e roubar coisas, embora não houvesse nada de valor lá”, referiu.

Quer superar a geração de 1998

O casal Lovren tem dois filhos em comum, o mais novo com 2 anos de idade e que já sabe o nome de todos os jogadores croatas, como se pode perceber pelo vídeo que o defesa central publicou no seu Instagram há poucos dias.

Lovren será certamente titular esta quarta-feira no jogo das meias-finais com Inglaterra, em que a Croácia tentará fazer história, alcançando a primeira final de uma fase final na sua história e conseguindo assim superar o terceiro lugar obtido no Mundial de 98 pela geração de Suker, Prosinecki e companhia.

“Penso que somos um espelho da geração de 1998 e temos a hipótese de fazer história se trabalharmos no duro, tal como foi conseguido em 1998 ”, sublinhou, confessando que só tem essa recordação de há 20 anos pelos gritos da mãe a comemorar os golos croatas.

Artigo de
João Cidra

11-07-2018



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