Lovren, a vida do ex-refugiado carrancudo dava um filme

Lovren, a vida do ex-refugiado carrancudo dava um filme

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Lovren, a vida do ex-refugiado carrancudo dava um filme

Nada que o impeça de ser uma das figuras de uma Croácia que pode estar à beira de fazer história no Mundial de futebol.

Dejan Lovren, defesa central que tem sido um dos esteios da seleção croata no Campeonato do Mundo, tem uma história de vida bastante complicada e que merece a pena ser conhecida. Tudo começou com apenas três anos, quando, devido à guerra, teve de deixar Kraljeva Sutjeska, pequena cidade situada na Bósnia.

“Kraljeva Sutjeska era uma cidade familiar, com 12 mil pessoas e a minha família tinha tudo, até que eclodiu a guerra. Lembro-me da minha mãe pegar em mim e de irmos para o porão. Eu, a minha mãe, o meu tio e a mulher dele ficámos lá sentados durante muito tempo e, depois, fomos de carro até à Alemanha durante 17 horas”, explicou o futebolista do FC Liverpool no seu documentário “Lovren: My Life as a Refugee” (“Lovren: A Minha Vida como Refugiado”, em português).

Passou a viver em Munique, numa pequena casa que chegou a albergar 11 pessoas. E desde muito novo que a sua grande paixão passou a ser o futebol. “Comecei a jogar com cinco ou seis anos com o meu pai, no quintal. Lembro-me de que quando tinha seis ou sete anos fui a um treino do Bayern Munique e tirei fotos com estrelas como Lizarazu e Matthäus. Estava integrado e gostava de viver na Alemanha”, confessou.

No entanto, quando Lovren tinha dez anos, o governo alemão ordenou que os refugiados da ex-Jugoslávia abandonassem o país, uma vez que a guerra já tinha terminado. “Houve um dia que nos disseram que tínhamos dois meses para arrumar as malas e partir. Para mim foi difícil, pois todos os meus amigos estavam na Alemanha. Estava feliz e jogava futebol num pequeno clube em que o meu pai era treinador”, revelou.

Era gozado na escola devido ao sotaque

Lovren foi viver para a cidade croata de Karlovac, a 50 km da capital Zagreb e sentiu grandes dificuldades de adaptação, uma vez que não dominava a língua. “Os miúdos perguntavam-me por que razão o meu sotaque era diferente e na verdade, até hoje, mantenho o sotaque alemão. Tive problemas na escola por causa disso e os meus colegas só não se riam de mim quando eu estava a jogar futebol. Foi devido à forma como jogava que as pessoas me começaram a respeitar”, conta. Começou por representar dois pequenos clubes – o NK Ilovac e o NK Karlovac – e aos 15 anos chegou ao Dínamo Zagreb.

Com apenas 17 anos estreou-se pela equipa principal do Dínamo Zagreb, mas poucos dias depois foi emprestado ao NK Inter Zapreši por duas temporadas, onde fez 50 partidas. Aos 19 anos, voltou ao Dínamo e assumiu-se como um dos melhores jogadores da equipa durante a época e meia seguinte, despertando o interesse do Olympique Lyon, que pagou 8 milhões de euros pelo seu passe. Esteve três épocas e meia no clube francês, com assinalável sucesso.

Em 2013/14 chegou à Liga inglesa através do Southampton, por 10 milhões de e bastou-lhe uma época para convencer o FC Liverpool a pagar 25 milhões de euros. Mantém-se em Anfield desde então e a sua melhor época foi a última, tendo realizado 43 jogos.

Acusado de fazer apologia do regime fascista

Será devido às dificuldades que sempre teve de enfrentar que não é fácil arrancar um sorriso a Dejan Lovren. Nem quando há poucos dias cortou o bolo do seu 29º aniversário mostrou os dentes, pelo menos nas fotos que foram disponibilizadas nas redes sociais. E na conferência de imprensa de antevisão da partida com a Rússia irritou-se com a pergunta de um jornalista do seu país, a respeito do jogo menos conseguido da equipa no jogo dos oitavos de final com a Dinamarca. “Não jogámos em alto nível? Mas temos de jogar sempre ao mais alto nível? Nem o Brasil jogou bem em todos os jogos e nós temos de jogar sempre bem?”, questionou.

Dentro de campo, Lovren também é intratável e tem formado dupla de aço no centro da defesa croata com Domagoj Vida. Fora do campo, não se tem livrado de algumas polémicas, a última das quais depois de ter publicado um vídeo nas redes sociais onde festejou a vitória por 3-0 diante da Argentina ao som da música “Bojna Cavoglave”, da banda Thompson. E o que tem isto de especial? A música ganhou fama por fazer apologia ao regime fascista que existiu na Croácia durante a II Guerra Mundial. A canção contém a frase “za dom spremni”, que em português significa “pela pátria, preparados”, sendo slogan de campanha e uma saudação usada pelos Ustase, movimento revolucionário croata acusado de terrorismo.

Lovren foi traído pela mulher

Casado com Anita Lovren, com quem namora desde os 16 anos, a relação correu sérios riscos há cerca de dois anos, quando a mulher o traiu com o seu grande amigo Dario Torbic. Anita convenceu Dario a voar até Liverpool e os dois encontraram-se várias vezes num hotel da cidade, entretendo-se enquanto Lovren treinava. No auge da polémica, Anita não se conteve e mostrou o dedo do meio a alguns fotógrafos, à saída do centro de treinos do FC Liverpool, depois de lá ter deixado o marido.

Esta situação ocorreu muito perto do Euro 2016 e alguns meios de comunicação social adiantaram que Lovren iria falhar a competição na tentativa de salvar o casamento, indo de férias com Anita precisamente durante a competição. O defesa central ficou de facto de fora do Campeonato da Europa, mas por ter entrado em conflito com o selecionador Ante Cacic. Tudo depois de não ter sido utilizado num jogo particular, o que o levou a confrontar o treinador, que referiu que o central “só voltaria a ser convocado quando aprendesse a ser um jogador de equipa”.

Falhou o Euro 2016 por ter entrado em conflito com o selecionador

Alguns adeptos acusaram o futebolista de ter provocado a situação, de modo a poder ir de férias por alturas do Euro 2016. Lovren desmentiu e garantiu que queria ter sido convocado. O jogador e Anita acabaram por se reconciliar poucas semanas depois, quando se descobriu que ela estava grávida de Lovren. Refira-se que entretanto, o ex-amante de Anita foi acusado de só se ter interessado por ela para deitar mãos ao dinheiro de um possível divórcio, que renderia perto de 4 milhões de euros a Anita. Dario viria entretanto a ser preso, acusado de ter sequestrado duas mulheres.

Em novembro de 2017, Anita voltou a ser notícia, quando foi assaltada em casa, enquanto o jogador disputava uma partida da Liga dos Campeões em Anfiled, com o Maribor. “Infelizmente, ela e os dois miúdos estavam em casa e foi horrível. Faço o meu melhor para ter uma vida tranquila, mas nem sempre depende de mim, porque há pessoas que querem entrar na minha casa e roubar coisas, embora não houvesse nada de valor lá”, referiu.

Quer superar a geração de 1998

O casal Lovren tem dois filhos em comum, o mais novo com 2 anos de idade e que já sabe o nome de todos os jogadores croatas, como se pode perceber pelo vídeo que o defesa central publicou no seu Instagram há poucos dias.

Lovren será certamente titular esta quarta-feira no jogo das meias-finais com Inglaterra, em que a Croácia tentará fazer história, alcançando a primeira final de uma fase final na sua história e conseguindo assim superar o terceiro lugar obtido no Mundial de 98 pela geração de Suker, Prosinecki e companhia.

“Penso que somos um espelho da geração de 1998 e temos a hipótese de fazer história se trabalharmos no duro, tal como foi conseguido em 1998 ”, sublinhou, confessando que só tem essa recordação de há 20 anos pelos gritos da mãe a comemorar os golos croatas.

Artigo de
João Cidra

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