Virgul sobre o reencontro dos Da Weasel: “Devemos isso aos fãs e a cada um de nós”

Virgul sobre o reencontro dos Da Weasel: “Devemos isso aos fãs e a cada um de nós”

Entrevistas

Virgul sobre o reencontro dos Da Weasel: “Devemos isso aos fãs e a cada um de nós”

Depois da bem-sucedida estreia a solo, Virgul fala do peso que os Da Weasel tiveram no seu percurso desde o final da banda.

“Saber Aceitar” é o álbum que marca a estreia a solo de Virgul. O disco abriu e fechou a conversa mas pelo meio houve tempo para percorrer a carreira e vida do cantor que fez parte dos Da Weasel, uma das bandas mais marcantes dos últimos anos da música portuguesa. Virgul acredita num reencontro do grupo e revela que esteve quase a desistir da música. Isto e muito mais, numa entrevista em que o cantor dá a conhecer os três pilares fundamentais para que a vida e carreira estejam bem.

Porquê só agora lançar um álbum a solo?
A resposta mais natural possível é dizer que tudo tem o seu tempo. Foi o tempo necessário para que chegasse aqui. Mas mais do que tudo, foi perceber o que realmente queria, se era na música que queria estar. Porque houve uma altura em que não sabia se ia continuar na música depois do final dos Da Weasel. Nessa altura fiz outras coisas que não música. E isso fez-me perceber o quanto gosto de fazer música.

Nesses momentos de dúvida, existe um detalhe específico que tenha feito com que percebesse que queria continuar na música?
Foi a saudade da música. E perceber que a música faz parte de mim. Devemos andar apaixonados diariamente ou não andamos cá a fazer nada e a música é a minha paixão. Percebi isso com os Da Weasel, depois tive dúvidas em relação à possibilidade de continuar sozinho. Foi o meu maior medo.

“Houve uma altura em que não sabia se ia continuar na música”

Esse medo de falhar está associado ao peso que os Da Weasel tiveram na música portuguesa?
Sou um bocado perfeccionista e tenho medo de falhar. Gosto de ensaiar, de ir bem preparado e de saber o que vou dar ao público. Mas o peso e dimensão que os Da Weasel tiveram também me deixou receoso. Mas acabei por abraçar esta paixão sem esse peso. A melhor forma de fazer bem feito tem de ser com naturalidade. Consegui libertar-me desse peso.

O peso vinha dos fãs ou era colocado por si nos seus ombros?
Era eu (mesmo). Somos os nossos maiores críticos. Depois de ter sentido o que senti com os Da Weasel, queria sentir o mesmo. Pensava nisto mas é algo que deve acontecer com naturalidade. Tal como aconteceu com os Da Weasel pois só nos queríamos divertir sem pensar no futuro e no que poderíamos alcançar.

“Consegui libertar-me desse peso [sucesso dos Da Weasel]”

O afastamento da música coincide com o tempo em que viveu em Angola. É algo que se reflete no álbum?
Sim! Na altura estava com uma pessoa com quem partilhava vida e havia a possibilidade de ir para Angola por pensar que o futuro poderia estar lá. Viver em Angola e a forma como andei a ouvir música em Angola e nos países vizinhos é algo que acabou por ser transportado para o disco.

É o seu melhor trabalho?
Acredito que o último é sempre o melhor. Estamos sempre a evoluir e a perceber o que não queremos. Espero que o próximo seja ainda melhor do que este.

O álbum está a ter uma aceitação muito boa junto do público. Durante o processo de criação consegue perceber quais os temas que vão resultar melhor?
Não é matemática e ainda bem que isso acontece. A música não deve ser matemática. Ia recebendo feedback muito bom da minha filha em relação ao “I Need This Girl”, o que fez com que quisesse que fosse o meu primeiro single. E acabou por não ser uma música que pegou de imediato. Por vezes as pessoas até gostam daquelas de que pensamos que não vão gostar tanto. E isso é fixe.

“Por vezes as pessoas até gostam daquelas [músicas] de que pensamos que não vão gostar tanto. E isso é fixe”

Curiosamente esse tema marca o reencontro com os Da Weasel pois desafiou o Carlão…
Pois foi! O Carlão escrevia muitas coisas nos Da Weasel e devo ter ficado mal habituado (risos). Ele é mesmo muito bom letrista e a primeira pessoa que escreveu a música não me deixou satisfeito. Cruzava-me muitas vezes com o Carlão mas ainda não tinha existido nenhuma conversa sobre os Da Weasel e ficava sempre algo no ar. Como quando se acaba uma relação com uma namorada. Tinha esse receio da abordagem mas uma grande vontade. Liguei-lhe e aceitou na hora. Tinha o refrão feito e ele fez os versos logo. Percebeu logo o que queria. Foi um reencontro porreiro.

Muitos fãs ainda não compreenderam o final dos Da Weasel. Foi complicado lidar com o fim do projeto?
Só nos apercebemos do impacto que tivemos depois do final. Era a saudade de estarmos juntos. Vivemos momentos muito bons. Vivemos momentos fantásticos.

“Cruzava-me muitas vezes com o Carlão mas ainda não tinha existido nenhuma conversa sobre os Da Weasel e ficava sempre algo no ar”

É inevitável que os Da Weasel se voltem a juntar?

A indústria musical costuma compartimentar os músicos por estilos e categorias. Onde é que se insere?
Sou pop! Gosto de música pop e comercial. Gosto de refrões orelhudos. E assumo isso completamente. É aquilo de que gosto e que me sinto bem a fazer. Encaixo-me bem no pop.

“Sou pop! Gosto de música pop e comercial. Gosto de refrões orelhudos”

Quais as diferenças deste Virgul para o rapaz que cresceu na Margem Sul e que se juntava com os amigos no jardim?
O miúdo cresceu e tem uma filha. Sabe melhor aquilo que não quer. E saber aquilo que não queremos é super importante para nos focarmos naquilo que queremos. Estou super feliz de ter voltado à música e de as coisas estarem a correr bem.

E quais as diferenças para o artista que dava mortais no Sudoeste?
Continuo a fazer mortais mas estou mais pesado (risos). A maturidade leva-nos a perceber o que queremos. Sei o que quero e o que me faz feliz. Não posso abandonar as minhas paixões e os laços familiares. Não posso estar longe da minha mãe, da minha filha e da minha música. São três pilares essenciais para que esteja de bem com a vida.

“Não posso estar longe da minha mãe, da minha filha e da minha música. São três pilares essenciais para que esteja de bem com a vida”

Voltando ao salto acrobático [partiu a perna], é um daqueles momentos de que se lembra sempre?
Se não me lembrar disso as pessoas fazem questão de que me lembre (risos). E isso é giro. Foram realmente ossos do ofício porque partia tíbia e o perónio.

O início de carreira está associado à dança. Ainda alimenta este lado artístico?
Continuo a gostar imenso de dança, mas já não está fácil (risos). No vídeo de “Nina” dancei e apercebi-me de que estou enferrujado (risos). Mas a paixão continua e quero voltar a dançar.

Portugal anda nas bocas do mundo desde que Madonna se mudou para Lisboa. Gostava de fazer algo com ela?
Sou fã da Madonna e nos Nu Soul Family tocávamos uma música dela. Gostava de trabalhar com ela mas não seria a minha primeira opção. Mas tenho um grande respeito pelo que fez no pop.

“Sei aceitar que é a música que me faz feliz. Sei aceitar que é a simplicidade que nos faz felizes”

Qual seria a primeira opção?
Assim de imediato o Pharrell [Williams]. É bom cantor, bom músico e bom produtor. Acaba por marcar a diferença na produção. Will.I.Am pelas mesmas razões. Mais próximo de nós, gosto muito de Seu Jorge. Também sou fã do Jorge Ben Jor de quem tenho a discografia toda. Em Portugal tive a sorte de trabalhar com Jorge Fernando, alguém que admiro e que é de uma área diferente da minha. E hoje em dia sou um grande apreciador de fado.

Começámos a falar do álbum e é com ele que acabamos a conversa. Pegando no nome do disco – “Saber Aceitar” – o que já sabe aceitar e o que ainda não sabe aceitar?
Sei aceitar que é a música que me faz feliz. Sei aceitar que é a simplicidade que nos faz felizes. Devemos saber aceitar aquilo que merecemos e lutar por isso. Não sei aceitar que não se faça mais pelos ouros. Estamos cada vez mais indiferentes ao que não se passa connosco, como é o caso da guerra na Síria. Temos de fazer mais. É preciso uma chamada de atenção e marcar pela diferença para que o mundo seja melhor. Não quero aceitar que não conseguimos ser melhores.

Agradecimentos: Mundet Factory
Artigo de
Bruno Seruca

RELACIONADOS