Miguel Garcia: “Os jogadores dos clubes pequenos são mais unidos. Não há vedetas”

Miguel Garcia: “Os jogadores dos clubes pequenos são mais unidos. Não há vedetas”

Entrevistas

Miguel Garcia: “Os jogadores dos clubes pequenos são mais unidos. Não há vedetas”

Entrevista ao “herói de Alkmaar”, que criou uma empresa de Gestão Imobiliária e continua a seguir com todo a atenção o Sporting, acreditando que este ano os leões podem finalmente ser campeões nacionais.

Artigo de André Cruz Martins

18-01-2019

Será para sempre conhecido pelos adeptos do Sporting com o “Herói de Alkmaar”. É obviamente de Miguel Garcia que falamos, o antigo defesa direito do Sporting que só marcou quatro golos na sua carreira como profissional, mas um deles valeu a presença na final da Taça UEFA de 2004/05.

Nesta entrevista ao paraeles, Miguel Garcia aborda os momentos mais marcantes da sua carreira, fala-nos da empresa de Gestão Imobiliária que criou e do momento atual do Sporting, acreditando numa época de sucesso dos leões, depois da turbulência dos últimos meses.

Como surgiu a ideia da criação desta empresa de Gestão Imobiliária?
Desde cedo que comecei a preparar a minha vida pós-futebol, pois tinha a noção de que quando deixasse de jogar iria sentir um grande vazio. Quando jogava, concluí a Licenciatura em Gestão Imobiliária e entretanto criei uma empresa de Gestão Imobiliária com um grande amigo meu. Fazemos investimentos, consultadoria e mediação.

O negócio está a correr bem?
Sim, felizmente. Temos o objetivo de fazer a ligação com o mundo do futebol e tenho aconselhado amigos meus a investir em determinadas zonas de Lisboa e qual a melhor altura para o fazer.

Foi difícil a adaptação a esta nova vida?
Nem por isso, apesar de obviamente sentir um pouco a falta do futebol. A verdade é que eu desde muito novo fiz investimentos imobiliários, comprava e vendia casas, era algo que me dava muito prazer. A primeira casa que comprei foi em Alcochete, tinha apenas 20 anos.

“Muito satisfeito com Frederico Varandas”

Continua atento ao futebol? O que pensa do atual momento do Sporting?
Sim, estou sempre atento ao meu clube. Infelizmente, todos sabemos o que aconteceu no final da época passada com a invasão à Academia. Para se ter ideia da gravidade da situação, foi algo que nunca tinha acontecido e que possivelmente não se repetirá. Fiquei muito triste como sportinguista e mesmo as pessoas que não são do Sporting ficaram muito tristes. No entanto, estou satisfeito com o atual momento do clube e pela forma como foi ultrapassado este triste acontecimento.

Ainda acredita que o Sporting pode ser campeão nacional esta época?
Sim, mas se não formos campeões já esta época, acredito que sejamos nos próximos anos. Temos uma excelente equipa, que joga bom futebol e fora do campo, fiquei muito satisfeito com o sucesso do Empréstimo Obrigacionista.

O que tem achado do trabalho de Frederico Varandas?
Estou muito satisfeito. Não tem sido um trabalho fácil, em face da situação que herdou e vai levar o seu tempo até conseguir atingir os objetivos a que se propõe, pois quer fazer muitas alterações. O Sporting pode demorar algum tempo a retomar o caminho do sucesso, mas acredito que vai conseguir.

“Bruno de Carvalho, felizmente, é passado”

Qual a sua opinião a respeito de Bruno de Carvalho e do trabalho que desenvolveu enquanto presidente do Sporting?
Começou muito bem na sua função de presidente do Sporting e todos os adeptos gostavam dele. No entanto, na fase final, piorou muito, passando a estar envolvido em muitas confusões internas e até com sportinguistas que o apoiavam. Na minha opinião, teve atitudes que um presidente não pode ter. Mas felizmente ele é passado e o Sporting agora tem uma nova direção que está apostada em fazer um bom trabalho.

O que achou do despedimento de José Peseiro, um treinador que conhece bem, pois foi por ele orientado?
Na minha opinião, o mister José Peseiro é um excelente treinador. Quando a época começou, havia uma grande instabilidade e apesar das exibições não serem as melhores, conseguiu excelentes resultados, tirando a derrota em Braga, que ainda assim acaba por ser um resultado normal. Depois, houve dois ou três jogos maus, principalmente com o Estoril e a direção achou que o melhor seria mudar de treinador. Não me compete a mim dizer se foi uma boa ou uma má decisão e certamente que quem decidiu esta mudança tem a convicção de que as coisas serão melhores com o novo treinador.

“Nunca esquecerei o golo de Alkmaar”

Foi precisamente quando José Peseiro era o treinador do Sporting que viveu o momento mais alto da carreira, ao marcar o célebre golo em Alkmaar, que valeu a qualificação para a final da Taça UEFA, em 2004/05. Ainda é muito abordado na rua devido a esse lance?
Hoje já nem tanto, mas de vez em quando isso ainda acontece, principalmente quando estou em algum encontro de sportinguistas. Eles recordam-me esse momento e confesso que gosto que o façam, pois foi o momento mais marcante da minha carreira e nunca o irei esquecer. Mas o melhor de tudo é quando o meu filho de 8 anos pede para ver o vídeo do golo e depois me pergunta “foste tu, pai, foste tu?”

Lembra-se se conseguiu dormir na noite que se seguiu a esse jogo em Alkmaar?
Sim, sim, consegui, mas claro que adormeci a pensar no golo e no facto de termos chegado à final.

A final não correu nada bem. O que aconteceu para que o Sporting tenha acabado por perder por 1-3 em casa com o CSKA Moscovo?
Chegámos ao intervalo a ganhar por 1-0, mas éramos uma equipa muito ofensiva, que não se contentava em ganhar só por um, Queríamos sempre mais e foi isso que nos tramou. Faltou-nos um pouco de cabeça e atirámo-nos para a frente. E tudo ficou ainda pior quando eles empataram, aí é que nos lançámos completamente no ataque e eles aproveitaram para marcar dois golos em contra-ataque.

“Nunca serei treinador principal”

Gostaria de um dia voltar ao Sporting?
Estou um pouco desligado do futebol. Ou melhor, desligado não é a melhor palavra, até porque quero fazer a ligação entre o imobiliário e o futebol. A melhor palavra é afastado. E sem dúvida que nesta altura quero dedicar-me à minha empresa e à minha família. Estive vários anos no estrangeiro, muitos anos em estágios e por isso afastado dos meus filhos e por isso pretendo recuperar o tempo perdido. Posso eventualmente um dia voltar ao futebol, mas nunca serei treinador principal. Vejo-me mais com o papel de diretor.

Por que não como treinador?
Até pondero tirar o curso de treinador, mas para depois exercer como adjunto, nunca como treinador principal. Eventualmente poderei treinar a parte defensiva das equipas.

Jogou em grandes clubes como o Sporting e o Sp. Braga, mas ainda assim, pensa que poderia ter ido mais longe? O que lhe faltou atingir?
Essencialmente ser internacional A. Curiosamente, na pré-época que se seguiu à minha estreia na equipa principal do Sporting, fui convocado para o “Jogo das Estrelas”, no Algarve, e o Scolari, que na altura era o selecionador nacional, foi ao meu lado na camioneta. Disse-me que gostava muito de me ver jogar, que eu estava no bom caminho e que se continuasse assim acabaria por ter uma oportunidade. No entanto, isso nunca veio a acontecer, pois o Paulo Ferreira e o Miguel estiveram sempre em alto nível. Felizmente, consegui jogar em dois grandes clubes e ainda no Olhanense, onde relancei a carreira depois de ter sofrido uma lesão gravíssima. Estive em campeonatos estrangeiros, nomeadamente na Turquia, Espanha, Itália e Índia.

“Era muito complicado ver a pobreza na Índia”

Como foi a experiência na Índia?
Adorei. Foi numa fase final da carreira, no ano de lançamento da SuperLiga local e que atraiu muitos jogadores estrangeiros. Garantiram-me que os estádios iam estar sempre cheios e que seria uma grande competição. A competitividade não era muito grande, mas de facto os estádios estavam cheios e foi uma experiência muito gratificante, que aconselho a jogadores em final de carreira.

A Índia é conhecida por ser um país com muita pobreza. Ficou chocado com algum episódio em particular?
Sim, confirmo que é incrível a pobreza que existe na Índia e uma pessoa não consegue ficar indiferente. Havia muitas pessoas a dormir na rua, a tomar banho na rua, enfim, era muito complicado de ver e apesar de na Europa também haver pobreza, a situação na Índia é muito pior.

E como eram os indianos no relacionamento do dia a dia?
Muito afáveis, humildes e trabalhadores. Aliás, os miúdos lá começam a trabalhar muito cedo, pois são obrigados a ajudar os pais, pois o dinheiro que os pais ganham não chega para sustentar a família. Os salários são mesmo miseráveis. Normalmente, os indianos preferem ter filhos em vez de filhas, pois dessa forma é mais fácil começarem a trabalhar desde muito novos. Aliás, saiu uma lei que proíbe os casais de conhecer o sexo do filho.

“Jogadores dos clubes pequenos são mais unidos”

Qual foi o treinador que mais o marcou?
Não consigo escolher apenas um nome. Posso referir o Fernando Santos, que me lançou no Sporting, o José Peseiro, que me ajudou a ter mais confiança em mim mesmo e o Jorge Costa, que no Olhanense apostou em mim quando ninguém acreditava, devido à grave lesão que sofri. E não posso esquecer o Domingos Paciência, com quem cresci muito no processo defensivo.

Qual foi o seu colega mais divertido?
Essa é fácil, foi o Ukra, que foi meu colega no Olhanense. Estava sempre na palhaçada, a promover um bom espírito de grupo. Esse plantel do Olhanense foi o melhor que encontrei em termos de camaradagem e união. Aliás, penso que os jogadores dos clubes pequenos são mais unidos, pois não há vedetas e todos lutam pelo mesmo objetivo, que é mostrarem o seu futebol para despertar o interesse de maiores clubes.

Quer-nos contar algum episódio que mostre a boa disposição de Ukra?
Ele tinha a mania de se envolver em papel higiénico e depois dizia que era uma múmia. Era a risada geral, claro. Ou então punha coisas debaixo da roupa, na zona da barriga e dizia que era o homem-bomba. Era muito divertido e todos os dias a diversão estava garantida.

Artigo de
André Cruz Martins

18-01-2019



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