Futre: “Não sei o que teria sido de mim se não fosse o Octávio Machado”

Futre: “Não sei o que teria sido de mim se não fosse o Octávio Machado”

Entrevistas

Futre: “Não sei o que teria sido de mim se não fosse o Octávio Machado”

Em entrevista ao paraeles, Paulo Futre relembra alguns episódios marcantes da sua carreira e também fala da atualidade futebolística nacional.

Artigo de André Cruz Martins

02-11-2018

Paulo Futre foi sem dúvida um dos mais talentosos jogadores portugueses de todos os tempos e só não chegou ainda mais longe devido às lesões que não o pouparam a partir dos 27 anos. Formado no Sporting, só representou os leões uma época enquanto sénior e mudou-se com apenas 18 anos para o FC Porto, onde viveu três temporadas de enorme sucesso e foi campeão europeu.

Foi no Atlético de Madrid que viveu o auge, tornando-se capitão e símbolo e vivendo uma relação de amor-ódio com o presidente Jésus Gil y Gil. Acabaria por fazer o pleno dos três grandes portugueses depois de representar o Benfica durante seis meses, na segunda metade da época de 1992/93.

Foi para o Olympique Marselha na época seguinte, onde sofreu uma grave lesão e a partir daí nunca mais os problemas físicos o largaram. Passou ainda por Reggiana, AC Milan, West Ham e pelos japoneses do Yokohama Flügels, mas sempre sem grande sucesso. E até voltou a jogar dez partidas pelo Atlético de Madrid em 1998, depois de ter sido chamado de surpresa a um treino do plantel e deslumbrado o treinador Radomir Antic.

Depois de terminada a carreira, manteve alguma discrição durante uns bons anos, mas tudo mudou com a inesquecível conferência de imprensa de apresentação da candidatura de Dias Ferreira à presidência do Sporting, em 2011.

Desde este episódio passou a assumir grande destaque no espaço mediático, sendo constantemente solicitado para as mais variadas publicidades e eventos. É ainda comentador fixo num canal do cabo.

Estreou-se na equipa principal do Sporting com apenas 17 anos. Ainda se lembra dos pormenores desse jogo particular com a Portuguesa dos Desportos, em fevereiro de 1983, em Alvalade?

Perfeitamente. Desde os 11 anos, sempre que me deitava, imaginava como seria a minha estreia na equipa principal. As pessoas podem imaginar a alegria indescritível que senti naquele dia. Alguns meses depois, foi a estreia oficial, com o Penafiel e também em Alvalade.

Os sócios do Sporting ficaram entusiasmados com as suas exibições?

Todos ou quase todos os sócios do Sporting já me conheciam dos juniores e eu era o capitão nas seleções jovens. Por isso certamente não ficaram surpreendidos com o que viram.

Em 1983/84 fez 29 jogos pela equipa principal do Sporting, mas no final dessa época foi surpreendido com o desejo do clube em emprestá-lo à Académica. Como reagiu?

Foi o dia mais triste da minha vida até então.Já era internacional A e não estava à espera de ser emprestado. Entretanto, apareceu o interesse do FC Porto e acabei por ir para lá.

“Ir para o FC Porto foi a decisão mais difícil da minha vida”

 

Não pensou duas vezes em mudar-se para o FC Porto ou ainda hesitou?

Foi a decisão mais difícil na minha vida, mas a mais acertada. Pensei muito se deveria ir e ainda fiz uma contraproposta ao Sporting, por valores muito mais baixos do que os que me eram oferecidos pelo FC Porto. No entanto, responderam-me que eu estava louco e depois desta resposta só podia mesmo ir para o FC Porto, certo?

Como foi a experiência de três temporadas no FC Porto?

Excelente em todos os sentidos, quer do ponto de vista profissional, quer pessoal. Quando cheguei estava na transição de adolescente para adulto e o FC Porto acabou por ser uma grande escola para o que depois viria a viver nos anos seguintes no estrangeiro. Fui campeão nacional logo no meu primeiro ano e campeão europeu no terceiro. Não podia pedir mais. E a união e a força naquele balneário eram incríveis.

 

O que nos tem a dizer de Pinto da Costa?

Foi o meu segundo pai desportivo, depois do Aurélio Pereira. Um líder carismático e que nem precisava de falar muito. Se olhássemos para ele percebíamos logo se estava contente ou zangado.

“Octávio fazia-me marcação homem a homem”

Conte-nos lá as histórias do então treinador adjunto Octávio Machado lhe ir bater à porta de casa durante a noite.

Primeiro que tudo, tenho de enaltecer a figura do Octávio, que foi um grande jogador e na altura era um treinador adjunto exemplar. Eu tinha marcação homem a homem dentro do campo e fora do campo era o Octávio que me fazia marcação homem a homem. E estamos a falar de marcação a todas as horas, ele nem me deixava respirar. Foram muitas as noites em que me bateu à campainha para ver se eu estava lá. Ou então, ligava-me. Naquela altura não havia telemóveis e por isso tinha de ficar em casa para atender o telefone. Não sei o que teria sido de mim se não fosse ele e não foi apenas por causa deste controlo, mas também com a preocupação obsessiva que ele tinha com a minha alimentação. Se eu tivesse um quilo a mais ele dava-me na cabeça.

Depois de três anos de sucesso no FC Porto seguiu-se o Atlético de Madrid, onde ainda hoje é considerado um dos melhores jogadores da história. O que acha que lhe faltou fazer na carreira de futebolista?

Fiquei com três espinhas atravessadas na garganta: não ter sido campeão espanhol pelo Atlético de Madrid, lamento muito só ter feito parte da equipa principal do Sporting durante uma época e também de não ter feito algo importante pela seleção nacional.

“Tinha relação de amor-ódio com Gil y Gil”

No Atlético de Madrid construiu uma relação muito especial com o então presidente, Jesús Gil Y Gil.

Não houve, nem nunca haverá uma relação jogador-presidente no mundo do futebol como a que eu e ele tivemos. Era uma relação de pai e filho, amor e ódio e estamos a falar de 17 anos nisto, não apenas dos meus sete anos como jogador, alguns deles como capitão. Depois, fui embaixador e diretor desportivo com ele. Era uma pessoa fantástica e com um coração maior do que o meu, mas muito, muito polémico e chocámos muitas vezes.

É possível comparar o estilo de Gil y Gil com outro (ex) presidente que conhece bem, Bruno de Carvalho?

As comparações são sempre odiosas. O Gil y Gil esteve 17 anos no Atlético de Madrid, o Bruno de Carvalho esteve apenas cinco. Claro que o Bruno é uma pessoa igualmente muito polémica, mas não vejo grande termo de comparação, até porque os tempos do Gil y Gil eram outros, muito diferentes dos atuais.

“Foi uma loucura o Bruno entrar em guerra com os jogadores”

Por falar em Bruno de Carvalho, o que acha que aconteceu para em poucos meses passar de um apoio de 90 por cento dos sócios do Sporting para ser destituído?

Fez um primeiro mandato fantástico e em parte do segundo continuou a fazer um grande trabalho, embora por vezes “se passasse” a nível dialético. Mas atenção, na parte da gestão, afinal de contas o que mais interessava, fez coisas incríveis. Apoiei-o na segunda eleição como presidente do Sporting e as coisas estavam a correr bem até se virar contra os jogadores. Aquele post no Facebook depois do jogo com o Atlético de Madrid foi o fim dele. Foi uma loucura o Bruno entrar em guerra com os jogadores. Nenhum presidente pode ter sucesso se estiver em guerra total com o plantel e com o treinador. E desde aí entrou em espiral negativa, numa loucura completa.

Tem mantido contacto com Bruno de Carvalho?

Não falamos desde a véspera da final da Taça de Portugal, uns dias depois dos ataques em Alcochete e em que lhe disse que se deveria demitir.

Como reagiu a esse ataque à Academia Sporting?

Fiquei chocado, pois nunca pensei que uma coisas destas acontecesse em Portugal. Foi um autêntico pesadelo e nunca houve nada parecido por essa Europa fora. Foi um episódio muito negro na história do Sporting e do futebol português.

“Uns meses depois ela apareceu-me a dizer que estava grávida e que precisava de dinheiro para fazer um aborto”

O que pensa deste processo em que Cristiano Ronaldo é suspeito de violação?

Vai ao capítulo 8 do meu livro [“Paulo Futre, el Portugués”], em que conto uma história que se passou comigo. Certo dia, houve uma miúda que veio ter comigo, depois de um treino do FC Porto e deixou-me o seu número de telefone. Acabei por passar uma noite com ela e uns meses depois ela apareceu-me a dizer que estava grávida e que precisava de dinheiro para fazer um aborto. Eu respondi-lhe: “aborto? Estás louca? Ser pai era a maior alegria que eu podia ter”. Foi uma grande resposta. Eu era muito novo, devia ter uns 19 anos, mas já tinha alguma experiência de vida. A verdade é que a miúda em questão nunca mais me apareceu à frente. Voltando ao Cristiano Ronaldo, mostrei este exemplo para que se perceba como os grandes jogadores de futebol são assediados e como o que lhe estão a fazer é uma armadilha. Eu no meu tempo cheguei a receber soutiens e cuequinhas, imagina o que pode acontecer hoje em dia.

O Paulo foi o primeiro de grandes extremos formados pelo Sporting, tendo-se seguido nomes como Cristiano Ronaldo, Ricardo Quaresma, Simão, Nani, entre outros. O que pensa de Jovane Cabral?

Estou maravilhado com o miúdo. Não é fácil alguém tão novo [20 anos] impor-se desta forma no Sporting. Seja como suplente utilizado ou como titular, o Jovane é sempre decisivo. Joga pela direita e pela esquerda da mesma forma e vai para cima dos adversários sem medo. Temos craque, mas tem de manter a cabeça no lugar para continuar a evoluir.

Foi um dos poucos jogadores que representou os três grandes do futebol português. Em duas ou três fases, como definiria cada um deles, quais são as suas especificidades?

No Benfica estive menos tempo, apenas cinco meses, mas foi uma honra enorme representar esse clube. Posso dizer que os adeptos do FC Porto são muito diferentes dos adeptos do Sporting e do Benfica. Não que sejam mais exigentes, mas enquanto os do FC Porto me pediam um autógrafo e antes de dizer obrigado me diziam que eu tinha de ganhar no domingo, os do Sporting e do Benfica apenas diziam obrigado. Em termos de grandeza, estão os três no mesmo nível, embora seja óbvio que o Benfica tem mais adeptos e isso vê-se quando eu ia a qualquer lado e havia milhares de benfiquistas a apoiar. Isso também acontecia no Sporting e no FC Porto, mas não em número tão elevado.

Artigo de
André Cruz Martins

02-11-2018



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