António Raminhos: “Já atuei para duas ou três pessoas, o que era quase uma conversa”

António Raminhos: “Já atuei para duas ou três pessoas, o que era quase uma conversa”

Entrevistas

António Raminhos: “Já atuei para duas ou três pessoas, o que era quase uma conversa”

Começou por ser jornalista, mas foi com a comédia que conquistou os portugueses. António Raminhos garante estar no humor para “dar a outra perspetiva das coisas”.

Artigo de Bruno Seruca

20-11-2018

Começou por ser jornalista, mas pouco tempo depois estava num bar do Montijo, numa Sexta-Feira Santa, a fazer piadas sobre a virgindade. Já atuou para duas pessoas e hoje esgota salas com centenas de lugares, ficando nervoso antes de subir ao palco. Assim é António Raminhos, que garante ter valido a pena trocar o jornalismo pela comédia e que tem muito para nos contar numa entrevista que consegue misturar a carreira do humorista com Sylvester Stallone, Dolph Lundgren e até os anjos da Victoria’s Secret.

Estudou jornalismo e chegou a trabalhar na área. Nesse altura, acreditava que hoje seria o Raminhos que estaria a entrevistar outros humoristas?
Não, porque na altura nem ligava muito à comédia. Estava mais ligado ao desporto, gostava de desporto e o meu sonho era entrevistar quem admirava nessa área. Curiosamente, a comédia só surge muito tempo depois, apesar de ter chegado a entrevistar o Ricardo Araújo Pereira para a RTP. A comédia só surge depois de ter deixado o mundo do jornalismo.

“Se é para ganhar uma merda, mais vale ganhar uma merda a fazer aquilo de que gosto”

Em que momento é que “a tentativa de fazer piadolas” começa a tornar-se mais séria, fazendo com que o jornalismo começasse a perder a corrida?
O jornalismo perdeu logo a corrida (risos). Basicamente, fui para o mundo do desemprego e foi nessa altura que comecei a ver muita comédia e a ler muitas coisas sobre comédia. Fiz stand-up pela primeira vez numa Sexta-Feira Santa e comecei a atuar regularmente. Mas ainda cheguei a fazer trabalhos enquanto jornalista, colaborando com algumas revistas e com um programa que fiz na RTP. Mas pensava muito: “Se é para ganhar uma merda, mais vale ganhar uma merda a fazer aquilo de que gosto”. E acabou por ser assim.

Ainda se recorda do primeiro bar onde atuou? E da primeira piada que fez nesse espetáculo?
Sim! Era o Saldanha Café, no Montijo. Era um bar muito engraçado e com uma sala boa para fazer stand-up. Ainda há pouco tempo passei pelo Montijo e fiquei na dúvida sobre se estaria a funcionar, mas como era de dia não deu para perceber. A primeira piada tinha a ver com o facto de os meus pais não estarem presentes e dizia qualquer coisa como que tinham sempre feito questão de estar presentes nos momentos importantes da minha vida, o que não importaria se não tivessem feito questão de estar presentes no dia em que perdi a virgindade. E depois desenvolvia esta história.

“Fiz stand-up pela primeira vez numa Sexta-Feira Santa”

 

 

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Nessa altura acreditava que ia chegar a este ponto em que esgota salas por todo o País, como acontece com “O Melhor do Pior”?
Não, até porque ainda hoje não acredito que esgote salas pelo País (risos). Vou esgotando e tenho tido em sorte em todas as salas por onde tenho andado. Mas como vivo muito os momentos prefiro nem pensar nisso. Prefiro nem sequer pensar quantos bilhetes é que estou a vender, para não ficar apreensivo com isso. Nunca pensei nisso, as coisas foram acontecendo e é claro que é muito melhor atuar para uma sala cheia. Comecei por atuar para 30/40 pessoas, também já atuei para duas ou três pessoas, o que era quase uma conversa. É engraçado que hoje vamos a um teatro de 400 lugares e estão 300 pessoas e dizemos: “fogo, grande porcaria.” E são 300 pessoas!

“Já atuei para duas ou três pessoas, o que era quase uma conversa”

O sucesso aumenta a pressão ou alivia o nervosismo antes das atuações?
Aumenta sempre. Fico sempre nervoso e antes de entrar em palco desejo ser tudo menos aquilo que estou a fazer naquele momento. O nervoso é uma questão de responsabilidade, ainda que às vezes caia um bocadinho no excesso e fico a achar que sou uma grande merda e que não tenho piada nenhuma. Existem colegas com que às vezes atuo em conjunto e ficamos a dizer isto e outro diz que ele é que não tem piada nenhuma. Os bastidores do espetáculo conseguem ser um bocado bipolares.

Costuma recorrer à família para momentos de humor. É um processo criativo mais fácil ou é um caminho mais sinuoso, que exige mais cuidados?
Costumo recorrer à família porque é a minha vida. O stand-up é capaz de ser a forma mais pura de fazer comédia. É algo genuíno com a maior parte de nós a partilhar histórias e pontos de vista. Há quem faça histórias apenas com aquilo que rodeia os outros. Eu, como muitos outros, também faço com aquilo que me acontece. Não se trata de ser mais fácil ou sinuoso, mas às vezes são as coisas sinuosas da vida que se tornam nas melhores piadas.

“Às vezes são as coisas sinuosas da vida que se tornam nas melhores piadas”

Fazendo comparação com os tempos em que se iniciou no humor, hoje é mais fácil fazer uma piada ou as pessoas ficam escandalizadas muito mais facilmente?
É simples. Quando comecei, em 2006, as redes sociais praticamente não existiam. Não se trata de ser mais fácil ou difícil. As pessoas queriam ver comédia, iam aos bares, nós dizíamos a merda que queríamos e as pessoas podiam reagir mal. Mas reagiam na altura e no sítio em que tinham de reagir. Hoje as pessoas ficam escandalizadas mais facilmente porque não estão predispostas a perceber que aquilo que se está a fazer é uma piada. Se uma pessoa vai a um espetáculo de stand-up pode ficar escandalizada, mas não irá levantar-se nem estar aos berros com o gajo que está a fazer o espetáculo, porque percebe que é um espetáculo de humor. O problema é que nas redes sociais, e nos meios de comunicação social, estão 50 mil pessoas com vivências e realidades completamente diferentes, que nunca assistiram a um espetáculo e colocam aquilo numa outra gaveta.

“Hoje as pessoas ficam escandalizadas mais facilmente porque não estão predispostas a perceber que aquilo que se está a fazer é uma piada”

Por falar nisso, já colocou piadas na gaveta por receio da reação das pessoas?
Só no Facebook. Nos espetáculos ao vivo, não! Porque no stand-up posso fazer o que quiser e estou a ser genuíno e existem coisas que digo neste espetáculo que são muito agressivas.

Também escreve para outros. Este tipo de trabalho dá-lhe o mesmo prazer do que escrever para si?
Dá-me prazer o momento da escrita, às vezes não me dá tanto prazer ver como aquilo é desenvolvido (risos). Já aconteceram situações, por diversos motivos, que não foram ditas como tinha imaginado. Curiosamente, muitas vezes também faço parte daquilo que escrevo, embora já tenha escrito alguns sketches para o “5 Para a Meia Noite” nos quais não participava. Mas eram feitos por amigos que percebiam perfeitamente como as coisas deveriam ser feitas e que acrescentavam ainda mais ideias. Mas dá-me sempre muito mais prazer escrever para mim.

“Dá-me sempre muito mais prazer escrever para mim”

O que distingue um bom humorista?
Isto é sempre relativo. Por exemplo, há quem diga que o Tony Carreira é uma grande porcaria. Quem sou eu para falar de um indivíduo que enche salas, tem fãs e pessoas que apreciam o seu trabalho. Não sei como se pode quantificar isto, mas se alguém gosta daquilo que faço, já estou a ter algum valor. Para essas pessoas posso ser muito bom. Agora, posso ser muito bom para muitas pessoas ou só para algumas. O ser mau é simples. É uma pessoa que não tem ninguém a seguir o seu trabalho e que é criticado e não há nada que traga o seu trabalho à luz. Faz sentido dizer que poderá ser um mau profissional.

“Sou muito parvo! Há outros que também são, mas vivo muito do “nonsense” e de histórias”

E o que o distingue dos outros humoristas?
Sou muito parvo! Há outros que também são, mas vivo muito do “nonsense” e de histórias. Faço stand-up mas também conto uma história. Conto como lidei com determinadas situações e como vivi determinadas situações. Existem comediantes que fazem piadas diretas e que nada têm a ver com as suas vidas. Quando faço um espetáculo quero que as pessoas façam uma viagem comigo. Muitas pessoas dizem-me que estavam à espera de rir, mas não de chorar a rir e de chorar mesmo. Isso é o mais gratificante.

Que análise faz do atual panorama do humor nacional?
Acontece uma coisa fixe que é muitas pessoas a fazer comédia. Isto permite que existam muitos tipos de humor e muitas observações sobre o mesmo tema. Tem os seus problemas pois a mente dos comediantes funciona dentro do mesmo registo, porque tentamos procurar a piada e o lado diferente de uma mesma história. E às vezes esse lado diferente leva-nos para o mesmo sítio. Existem comediantes que podem ser acusados de plágio e simplesmente estão a pensar da mesma forma no mesmo assunto. As redes sociais também permitem que muitas pessoas mostrem o seu trabalho, algo que antigamente só acontecia nos bares e isto pode ser uma vantagem.

“As redes sociais também permitem que muitas pessoas mostrem o seu trabalho, algo que antigamente só acontecia nos bares”

E que futuro antevê para o humor português?
Sei lá! Desde que tenha trabalho está espetacular (risos).

Ainda lava as mãos 52 vezes por dia? E que outras coisas semelhantes faz?
Não, já não lavo. Estou muito mais calmo. Houve uma altura em que fazia isso e que demorava duas horas a tomar banho. Só me limpava à toalha uma vez e tinha de trocar de toalha. Chegava a controlar se tinha apagado as luzes não sei quantas vezes. Neste momento estou mais calmo porque é uma aprendizagem. A psicologia ajudou-me muito, a meditação ajuda-me muito. As pessoas desvalorizam a importância de terem de estar com elas, de terem de parar. Este foi um dos temas da Web Summit deste ano. É importante as pessoas pararem e desligar do mundo. Isso tem-me ajudado muito.

“É importante as pessoas pararem e desligar do mundo. Isso tem-me ajudado muito”

Para quando um filme sobre a sua vida, com Sylvester Stallone a fazer de António Raminhos. Se, por questões de agenda Stallone não estiver disponível, que ator português faria bem o papel?
O Stallone a fazer de mim era muito bom! Mas agora até preferia o Dolph Lundgren, que conheci na Comic Con. Se fizessem um filme sobre mim tinha de ser com ele. Até porque não tem nada a ver comigo e ainda seria mais espetacular. Quanto ao ator português, para a parvoíce, o Eduardo Madeira. Mas adorava ver o Manuel Marques a fazer de mim.

“Adorava ver o Manuel Marques a fazer de mim”

O que podemos esperar de António Raminhos em 2019?
Provavelmente, podemos esperar um novo espetáculo, cada vez mais virado para as pessoas, para as histórias. Não são lições de vida aquilo que pretendo fazer, mas dar a minha perspetiva das coisas. Acho que estou nesta área para dar a outra perspetiva das coisas.

O que preferia para o ano: atuar numa sala onde estão todos os humoristas que admira e o inspiram ou num sala onde estão todos os anjos da Victoria’s Secret?
Eish! E se fossem todos os anjos da Victoria’s Secret a contarem piadas dos humoristas que admiro. Isso é que era espetacular.

Para acabar, qual seria a pergunta que o jornalista António Raminhos faria ao humorista António Raminhos?
Boa pergunta! “Como é que é ser tão bonito e sexy?” seria uma boa pergunta. Assim mais sério… “Ainda vale a pena ter deixado o jornalismo?” E vale, cada vez vale mais a pena.

Fotos: Reprodução Instagram

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Artigo de
Bruno Seruca

20-11-2018



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