Caniggia, Batistuta, 71 mortos e outras polémicas na rivalidade entre River e Boca

Caniggia, Batistuta, 71 mortos e outras polémicas na rivalidade entre River e Boca

Desporto

Caniggia, Batistuta, 71 mortos e outras polémicas na rivalidade entre River e Boca

Os dois maiores clubes da Argentina decidem este sábado quem vai ganhar a Copa dos Libertadores, depois do empate a duas bolas na primeira mão da final.

Artigo de André Cruz Martins

06-12-2018

Aí está a tão aguardada segunda mão da final da Taça dos Libertadores, com o River Plate e o Boca Juniors a jogarem no estádio do Real Madrid, em Espanha, depois de muita polémica, agressões e do empate a duas bolas na primeira mão.

Como quase sempre acontece nos jogos entre estes dois clubes que se detestam, a primeira partida teve emoção a rodos e rivalidade levada ao extremo. E para “ajudar à festa”, o encontro, inicialmente marcado para sábado, 10 de novembro, só se disputou no dia seguinte, devido à intempérie que se abateu sobre Buenos Aires e que deixou o relvado da Bombonera num estado impraticável.

Recorde-se que Marcello Gallardo, treinador do River Plate, está impossibilitado de orientar a equipa nestes dois jogos da final da Libertadores, pois foi castigado por quatro jogos pela CONMEBOL, pelo facto de se ter deslocado ao balneário da sua equipa no intervalo do jogo da segunda mão da meia-final contra o Grémio, quando estava impossibilitado de o fazer devido a um castigo anterior.

Luta de classes

A rivalidade entre Boca e River, ambos fundados por emigrantes italianos, teve início na disputa pelo protagonismo do bairro de La Boca. Na década de 20 do século passado, o River mudou-se para o bairro de Belgano, no norte de Buenos Aires, a região mais rica da capital argentina e passou a ser visto como o clube da elite, daí ter ganho a alcunha de “milionários”, enquanto o Boca passou a ser o clube do povo e ganhou a alcunha de “bosteros”, dada por adeptos do rival, termo que remete para fezes. No entanto, com o passar dos anos, os próprios simpatizantes do Boca passaram a usar a palavra com orgulho.

Cerca de 70% dos adeptos argentinos torcem por um destes dois clubes, de longe os dois que mais campeonatos ganharam – 36 o River e 33 do Boca. Em títulos internacionais, a vantagem (clara) é do Boca, com 18 conquistas (seis Libertadores, três Mundiais de Clubes, duas Sul-Americanas e quatro Recopas), contra dez do River (três Libertadores, um Mundial de Clubes, uma Sul-Americana e uma Recopa).

O dia mais negro do Superclássico

23 de junho de 1968 ficou para sempre marcado como o dia mais negro do Superclássico, devido à “tragédia da porta 12”, ocorrida no Estádio Monumental e em que 71 pessoas perderam a vida (todos “hinchas” do Boca). A esmagadora maioria das vítimas era jovem (a média de idades foi de 19 anos). Outros 150 adeptos ficaram feridos, muitos com gravidade.

Algumas pessoas afirmaram que o desastre aconteceu depois de fãs do River terem invadido a bancada onde estavam concentrados os torcedores visitantes, causando a sua debandada. Outra versão alega que a porta dessa bancada estava trancada, causando o asfixiamento da multidão. Após três anos de investigação, ninguém foi considerado culpado, para grande desilusão das famílias das vítimas. Desde a tragédia, as portas do Monumental passaram a ser identificadas por letras em vez de números.

“É como dormir com a Julia Roberts”

Diego Maradona definiu de forma curiosa a atmosfera que rodeia o Superclássico. “Cheguei a jogar o Barcelona-Real Madrid, mas um Boca-River é muito diferente. É como dormir com a Julia Roberts.”, comparou. A rivalidade chega a ser tão doentia que em 2009, num jogo do escalão de sub-14, os jogadores de ambas as equipas envolveram-se numa autêntica batalha campal.

Foi num Boca-River de 1996 que assistimos a uma das imagens mais da história do futebol mundial, com Diego Maradona e Claudio Caniggia a beijarem-se na boca, na celebração de um golo.

O festejo que valeu expulsão

Em partida da fase a eliminar da Copa dos Libertadores de 2004, o River recebeu o Boca depois de ter perdido por 1-0 na primeira partida. Para a história ficou o festejo de Carlos Tévez, na altura um jovem com 20 anos, depois de marcar o golo do empate a uma bola para o Boca, imitando uma galinha, numa clara provocação ao rival, pois “galinhas” é outra das alcunhas dos adeptos do River. Esta celebração levou a que o árbitro mostrasse o vermelho direto ao ponta de lança. O River ainda chegou ao 2-1, mas acabou por ser derrotado nas grandes penalidades.

Gás-pimenta para os jogadores do River

Nos oitavos de final da Copa dos Libertadores de 2015, o River triunfou em casa por 1-0. Na partida de volta, no Bombonera, e estava a aguentar o 0-0, resultado com que se chegou ao intervalo. Depois aconteceu o impensável, com os futebolistas visitantes a serem atingidos por gás pimenta, atirado das bancadas, e levando à suspensão da partida. Vangioni, Funes Mori e Ponzio foram atingidos e, além da irritação no rosto, ficaram com marcas vermelhas no corpo. Mesmo após a suspensão da partida, os jogadores das duas equipas levaram muito tempo até deixar o campo, pois alguns adeptos do Boca provocam distúrbios na zona de saída do relvado para os balneários.

Jonathan Silva expulso aos 10 minutos da estreia

A rivalidade entre estes dois clubes é tão feroz, que até os jogos particulares causam enorme faísca. Por exemplo em janeiro de 2016, na tradicional partida de pré-temporada, houve cinco expulsões. Um dos jogadores a ver o vermelho foi Jonathan Silva, na altura emprestado pelo Sporting e que fazia a estreia no novo clube. Ao fim de dez minutos, já estava na rua, depois de ter entrado de forma violenta sobre Gabriel Mercado.

Jogadores “vira-casacas”

Vários futebolistas provocaram a ira dos adeptos ao mudarem-se para o grande rival. O primeiro foi Cataldo Spitale, que em 1933 trocou o Boca Juniors pelo River Plate. Vamos recordar os casos mais emblemáticos.

Batistuta

Aquele que foi um dos maiores goleadores argentinos de sempre chegou ao River Plate com 20 anos, mas não foi nada feliz nos “milionários”, entrou em rota de colisão com o treinador Daniel Passarela e só ficou uma época, transferindo-se diretamente para o Boca, onde também só se manteve uma temporada, mas em alto nível, tendo sido o melhor marcador da equipa, com 19 golos e conquistando o campeonato. Acabaria por se mudar para os italianos da Fiorentina.

Caniggia

Cláudio Cannigia é um dos poucos jogadores que é simultaneamente querido por adeptos do River Plate e do Boca Juniors. Foi formado nos “milionários”, pelos quais se estreou como profissional. Depois de ter feito carreira na Europa, voltou à Argentina aos 28 anos, mas para representar o Boca e onde fez dupla no ataque com Maradona.

“Loco” Gatti

O mítico guarda-redes ‘Loco’ Gatti, que jogava sempre com uma fita na cabeça, chegou ao River Plate em 1964, mas quatro anos depois foi para o Boca Juniors, que lhe ofereceu um salário irrecusável. Por lá ficou durante 12 anos, tendo realizado 381 jogos e ficado como uma das maiores lendas de sempre do clube.

Oscar Ruggeri

O central Oscar Ruggeri, adepto do Boca Juniors desde criança, fez a formação no clube do coração e ainda quatro temporadas na equipa sénior. Foi então que entrou em rota de colisão com a direção dos “bosteros”, pediu a rescisão do contrato e surpreendeu ao mudar-se para o River, onde se tornou uma lenda. Pelo contrário, passou a ser “persona non grata” no Boca e reconhece que passou por momentos complicados. “A mudança de clube foi muito difícil. Um dos lados olha-te como um traidor e no outro não confiam em ti. Precisas de tempo para te adaptar e muito caráter para conquistar as pessoas”, referiu.

Goleadas são exceção

Ao longo dos anos, o Superclássico tem sido pautado pelo equilíbrio e os resultados desnivelados são raros. Basta dizer que as maiores goleadas foram um 5 a 1, a favor do River, em 1941, e um 5 a 0 a favor do Boca em 2015, mas neste último caso em jogo de caráter particular, inserido na pré-época. Já se realizaram 240 jogos oficiais entre estes dois emblemas, com ligeira vantagem do Boca, que somou 86 vitórias, contra 80 do rival, tendo ainda havido 76 empates. Como será este sábado?

Artigo de
André Cruz Martins

06-12-2018



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