Dália Antunes: “Nem todas as pessoas conseguem ser barbeiro. É preciso um dom”

Dália Antunes: “Nem todas as pessoas conseguem ser barbeiro. É preciso um dom”

Entrevistas

Dália Antunes: “Nem todas as pessoas conseguem ser barbeiro. É preciso um dom”

É a barbeira mais antiga de Portugal e não tem papas na língua, Dália Antunes confessa que faz a barba aos namorados (quando se portam bem) e revela quem gostaria que se sentasse na sua cadeira.

Em criança apaixonou-se pela arte da barbearia. Inicialmente, o pai não achou piada à ideia mas acabou rendido ao talento da filha. Aos 44 anos, Dália Antunes é a barbeira mais antiga de Portugal. Foi no barbeiro “O Fernando”, em Lisboa, que nos encontrámos com a comunicadora de excelência que não tem papas na língua. E não viemos embora sem testar o talento de Dália Antunes.

Devo chamar-lhe barbeiro ou barbeira?
Barbeiro. Não há denominação feminina nesta profissão. Sou oficial de barbeiro. É aquilo que aparece nas nossas carteiras profissionais.

Como é que acabou numa profissão associada ao sexo masculino?
É uma paixão desde os 8,9 anos. Ia com a minha mãe às compras à Rua da Lapa (Lisboa) e havia um barbeiro que era o Anatol. A minha mãe fazia muitas compras e o senhor colocava uma tábua para que ficasse por lá a vê-lo trabalhar. Chorava para ir embora. Adorava ver o senhor a trabalhar. Lembro-me perfeitamente de como era o salão dele. Sou muito comunicativa e adorava o contato entre as pessoas. Fiquei fascinada e dizia lá em casa que quando fosse grande queria ser como o Anatol da Rua da Lapa.

Consegue encontrar uma explicação para esse encanto?
Isto é uma arte. E se calhar é mesmo a minha vocação. Temos formação mas nem todas as pessoas conseguem ser barbeiro. É preciso um dom.

E como é que reagiram os seus pais quando anunciou que queria seguir esta profissão?
Não correu nada bem. Toda a minha família está ligada aos seguros, não tenho uma cabeleireira na família. Quanto mais uma catraia dizer que quer ser barbeiro. O meu pai dizia que era louca. Obrigou-me a estudar e disse que tinha de tirar o curso de barbeiros à noite. Foi o que fiz aos 17 anos. Levei as coisas a sério, formei-me em três anos e no último o meu pai rendeu-se, acabando por ser o meu modelo de curso.

“O meu pai dizia que era louca. Obrigou-me a estudar e disse que tinha de tirar o curso de barbeiros à noite”

Falou de cabeleireiras. Porquê barbeiro e não cabeleireira?
Não tenho paciência para aturar senhoras (risos). Sou muito prática e simples. Toda a gente me conhece e as senhoras estão muito tempo no salão a conversar.

Qual era a reação dos seus namorados quando descobriam a sua profissão?
A reação era engraçada. O pai da minha filha era meu cliente. Já o conhecia e sabia o que fazia. Se vou a algum sítio onde tenha de escrever a minha profissão, escrevo oficial de barbeiro e as pessoas perguntam logo “desculpe?”. As pessoas não sabem o que é. Agora, o barbeiro está na moda. Mas há 25 anos não estava. Era totalmente diferente.

Fazia a barba aos namorados?
Sim. Quando eles se portavam bem (risos).

O que distingue um bom barbeiro?
Acima de tudo o gosto, muito gosto. É preciso estar sempre em cima de tudo. Ainda agora estive em Espanha, depois vou para o Porto. Tenho de estar sempre em cima das coisas, pois é uma aprendizagem constante. Quero conhecer tendências e tudo mais, independentemente de trabalhar em barbeiro de rua. E já trabalhei em centros comerciais mas não gosto.

Porquê?
O contacto com o público é diferente. As pessoas são diferentes.

“Se não estamos em cima de tudo, paramos no tempo”

Voltando às qualidades de um bom barbeiro.
É preciso muito gosto para querer saber cada vez mais. Conhecer as tendências, aquilo que se usa, saber aconselhar. Por exemplo, as barbas estão na moda e é necessário aconselhar o formato correto para cada rosto. Se não estamos em cima de tudo, paramos no tempo.

Os seus clientes já chegam aqui com uma ideia definida ou pedem conselhos?
De modo geral vêm com uma ideia definida. Podem perguntar o que acho, e dou o meu parecer. Sou sempre honesta. Se não gosto, não gosto. Não posso permitir que um trabalho de que não gosto vá para a rua. Compete-nos ser honestos acerca disso. Podem não aceitar o que digo, mas pelo menos ouvem.

Na sua opinião, os homens querem-se com barba ou sem barba?
Agora, com barba. Está na moda.

Algum estilo em específico?
Muito grandes não. Acho horrorosas. Os homens ficam muito giros com uma barba aparadinha.

Que homem, com barba, se destaca dos demais?
Vários… Há pouco tempo estive com o Nuno Eiró e acho que a barba lhe fica muito bem. Tem um rosto mais redondo e a barba ajuda a prolongar o rosto. Fica giro de barba.

Que homem conhecido gostaria que se sentasse na sua cadeira?
Um qualquer! Gosto de desafios (risos). Vamos buscar o Ronaldo e pomos aqui para lhe aparar a barba.

Mudava alguma coisa no visual de Cristiano Ronaldo?
Não. Agora está muito bem cuidado.

“Tenho uma carteira de clientes muitos bons e fiéis que me seguem para onde vou há 28 anos”

Alguém recusou ser atendido por si por ser mulher?
Não. Tenho uma carteira de clientes muitos bons e fiéis que me seguem para onde vou há 28 anos. Quando comecei, na Lapa, havia muito o hábito de as senhoras acompanharem os senhores na ida ao barbeiro. Elas viam a situação pior do que eles. Muitas pensavam que só lhes ia lavar a cabeça. Mas também entrei nisto quando era uma miúda e eles acabam por achar piada à minha maneira de ser.

Nunca pensou desistir?
Nunca. Amo o que faço. Não saio desta profissão, profissão nem morta.

A barbearia continua a ser um universo masculino ou já existem mais mulheres a trabalhar na área?
Tenho várias colegas que trabalham com eles, mas continua a ser um universo mais masculino. Não corto cabelo a senhoras. Mesmo que tenham cabelo curto, não corto.

Não me posso ir embora sem colocar o seu talento à prova…

Fotos: Tito Calado

Artigo de
Bruno Seruca

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