Cândido Costa: “Sentei-me numa cadeira e depois o Paulinho Santos despejou-me um contentor de lixo em cima”

Cândido Costa: “Sentei-me numa cadeira e depois o Paulinho Santos despejou-me um contentor de lixo em cima”

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Cândido Costa: “Sentei-me numa cadeira e depois o Paulinho Santos despejou-me um contentor de lixo em cima”

Cândido Costa deseja o triunfo do FC Porto no clássico e brincou com Silas, ex-colega e atual treinador do Belenenses, por ter roubado pontos ao seu clube do coração.

Cândido Costa começou a jogar futebol aos 13 anos, na Sanjoanense e aos 16 chegou ao Benfica, onde teve a carreira em risco devido a uma gravíssima lesão. Deu a volta por cima com a preciosa ajuda do seu pai, mas não chegou a representar os encarnados no escalão sénior.

Depois de uma curta passagem pelo Salgueiros, mudou-se para o FC Porto e conseguiu afirmar-se sob o comando de Fernando Santos, mas viria a perder influência no consolado de José Mourinho, a ponto de sair por empréstimo para o V. Setúbal. Foi no Belenenses que viveu o melhor período da sua carreira e nos últimos anos como futebolista foi afetado por muitos problemas físicos, tendo representado clube de divisões secundárias, abandonando o futebol em 2015, ao serviço da Ovarense.

Hoje em dia, é treinador adjunto de Cesarense e comentador do Porto Canal. E, claro, vai ser um espectador atento do clássico, torcendo por um triunfo do clube do coração.

Fez parte da formação no Benfica e representou o FC Porto no escalão sénior. Não perguntamos por quem vai torcer, pois a resposta é óbvia, mas podemos saber o que espera deste jogo tão importante?
Acho sempre que o FC Porto pode vencer e na minha opinião tem tudo para conseguir o seu grande objetivo esta temporada, que é ser campeão nacional. Ao longo da época esteve sempre em primeiro lugar, com exceção das últimas duas jornadas e na minha opinião seria um líder justo, pois apresentou quase sempre um futebol de ataque avassalador, com muitos golos marcados. E todos nos lembramos da forma como foi prejudicado pela arbitragem no jogo com o Benfica, da primeira volta. Se o FC Porto jogar ao nível habitual, pode vencer na Luz.

Acredita que vamos assistir a um grande espetáculo ou será um jogo um pouco aborrecido, como por vezes acontece nestes clássicos?
Acredito num grande espetáculo e acho que esta será uma oportunidade única para as duas equipas tirarem as dúvidas sobre quem é melhor. De uma coisa tenho a certeza: apesar de querer a vitória do FC Porto, reconheço que são dois grandes clubes.

Quem pode decidir esta partida?
Todos sabemos que há grandes jogadores de um lado e do outro, mas são sempre jogos em que o mais importante é as equipas serem suportadas pelo coletivo. A equipa que for mais harmoniosa estará mais perto de vencer.

Muitos defendem que o fator-casa tem grande importância neste tipo de jogos. Qual é a sua opinião?
Não será pelo facto de jogar em casa que os jogadores do Benfica estarão mais motivados do que os do FC Porto. Alías, quando eu jogava pelo FC Porto na Luz entreva sempre em campo muito motivado. Acima de tudo, espero que seja um grande espetáculo e que só se fale no jogo e não de questões extrafutebol, como infelizmente tem acontecido em Portugal.

“Fiquei com uma azia tremenda com a vitória do Belenenses frente ao FC Porto e até mandei um SMS ao Silas”

Acredita nas suspeitas que têm sido lançadas, de que há jogadores da I Liga que se deixam comprar e facilitam em determinados jogos?
Não acredito. Há muitas peripécias dentro de um campo de futebol e em todas as épocas vimos grandes disparates cometidos por alguns jogadores, erros inacreditáveis que resultaram em golos dos adversários. Só que ultimamente mudou a forma como olhamos para o jogo e como suspeitamos de tudo e de todos achamos que um ou outro jogador pode ter facilitado, algo em que não acredito.

Entre 2006 e 2010 representou o Belenenses, clube que curiosamente poderá ter ajudado a decidir o campeonato, ao roubar três pontos ao FC Porto. Isto embora também tenha roubado dois ao Benfica. Se o FC Porto não for campeão por um ponto, irá perdoar o seu amigo Silas, treinador do Belenenses?
Acho que não se poderá dizer que foi o Belenenses a roubar o título ao FC Porto, mesmo que o Benfica venha a ser campeão com um ponto de avanço. E depois deste Benfica-FC Porto ainda faltarão algumas jornadas [quatro] e muita água irá rolar por baixo da ponte, embora a equipa que vença o clássico saia mais fortalecida. Mas claro, não escondo que fiquei com uma azia tremenda com a vitória do Belenenses ao FC Porto e até mandei um SMS ao Silas.

Foi colega de equipa de Silas no Belenenses. Ele já tinha “pinta” de treinador?
Sim, quer ele quer o Zé Pedro [adjunto de Silas no Belenenses] faziam muitas perguntas aos treinadores e percebia-se que entendia muito sobre o jogo. Estão a fazer um trabalho muito bom e têm colocado o Belenenses a jogar um futebol de qualidade.

Que comparação pode estabelecer entre Benfica e FC Porto, pela experiência de ter representado ambos?
Tenho muito mais conhecimento do FC Porto, até porque só representei o Benfica na formação, por isso estaria sempre a ser injusto. Mas como portista que sou, acho que o FC Porto é sempre melhor do que o Benfica.

Como foi a sua chegada ao Benfica, com apenas 15 anos, vindo do modesto Sanjoanense?
Cheguei ao Benfica no escalão de juvenis e, claro, foi uma mudança para uma realidade completamente diferente da que estava habituado, para uma nova cidade e um clube muito grande. Não escondo que no início foi muito difícil, pois estava longe da família, o que naturalmente custa a qualquer jovem daquela idade, que fica afastado das pessoas que mais o deveriam proteger. Aliás, este afastamento repercutiu-se para o resto da minha vida, provocando um sentimento de nostalgia, devido ao tal corte radical com a família. mas quero realçar o facto de ter encontrado excelentes pessoas no Benfica, que me acompanharam e ajudaram muito.

“Senti que não estava a ser muito valorizado no Benfica e decidi sair para o Salgueiros”

Com 16 anos sofreu uma lesão gravíssima. Como conseguiu ultrapassar esse momento?
Sim, parti o perónio e fiz uma rotura de ligamentos no pé direito e só consegui ultrapassar esta lesão com a ajuda do meu pai, que trabalhava em São João da Madeira e, muitas vezes, aparecia em Lisboa sem avisar e ia ter comigo para me acompanhar e dar palavras de ânimo. Lembro-me que ele trazia areia da praia para eu pôr no pé.

Conseguiu recuperar, mas mudou-se para o Salgueiros, ainda como júnior. A que se deveu essa decisão?
Senti que não estava a ser muito valorizado no Benfica e decidi sair para o Salgueiros, embora não esconda que na altura me serviu de motivação o facto de existir a possibilidade de depois ir do Salgueiros para o FC Porto. Fiquei meia época no Salgueiros e depois fui mesmo para o FC Porto, tendo começado na equipa B, mas subindo rapidamente à equipa principal em 2000/01, treinado pelo Fernando Santos.

Quando estava no Benfica não escondia que era adepto do FC Porto?
Claro que não andava com uma bandeira do FC Porto a dizer que era portista, mas não escondia de ninguém essa situação. Eles brincavam comigo, dizendo “lá vai o tripeiro”. Quero no entanto deixar bem claro que defendi todos os clubes com muito brio e sempre com muita vontade de ganhar títulos e no Benfica não foi exceção.

Como foi a primeira vez que entrou no balneário do FC Porto e se cruzou com símbolos do clube como Jorge Costa, Paulinho Santos e Domingos?
Estava muito nervoso, pois tinha à minha frente pessoas que idolatrava. Imagine o que era para um miúdo estar à frente daquelas trutas todas. Senti enorme ansiedade naqueles primeiros dias, mas rapidamente me ambientei, até porque havia muitas praxes que ajudavam à integração dos novos jogadores que serviam para quebrar o gelo.

Quer-nos contar como foi a sua praxe?
Foi aquela praxe normal que faziam a todos os jogadores que chegavam ao plantel. Disseram para me sentar numa cadeira e depois apareceu o Paulinho Santos a despejar-me um contentor de lixo, com água e outras coisas. Foi divertido e ajudou na minha integração.

O que lhe ensinaram essas figuras míticas do FC Porto?
Aprendi mesmo muito com eles. Posso dizer que foram ensinamentos que levei até ao final da minha carreira e que ficaram para toda a minha vida. Transmitiram-me os valores do balneário.

Nessa sua primeira época no plantel principal do FC Porto foi bastante utilizado, tendo alinhado em 31 jogos.
Sim, em termos pessoais foi a minha melhor época no clube, dividi a titularidade com o Capucho e entrei para as luzes da ribalta. No entanto, nem recordo essa época com grande saudade, pois só ganhámos uma Taça de Portugal. Duas épocas depois, foi aquela temporada com o José Mourinho em que ganhámos campeonato, Taça de Portugal e Liga Europa e é dessa que tenho melhores memórias, apesar de ter jogado muito menos. Deu-nos enorme gozo ganhar todas essas competições, depois de termos sido desvalorizados, por terem chegado vários jogadores do União de Leiria, nomeadamente o Nuno Valente e o Derlei, que acabaram por se revelar determinantes. Fiquei orgulhoso pela pequena contribuição que dei nessa época que entrou para a história do clube [alinhou em cinco jogos oficiais].

Como foi ser treinado por José Mourinho? Já se distinguia dos outros treinadores?
Só pela forma de comunicar foi uma lufada de ar fresco para o plantel. Tinha uma maneira de ser diferente dos outros treinadores e houve como que uma libertação de todo o grupo. Não só pelos métodos inovadores que trouxe, mas pela forma como se colocava ao nível dos jogadores. Era um líder marcante.

“Em três anos no Benfica, nunca vi Vale e Azevedo”

Conviveu muito com Pinto da Costa enquanto esteve no FC Porto?
Sim, pois ele era uma pessoa muito presente, estava sempre perto da equipa. Fiquei com a melhor das impressões dele.

E como foi a sua relação com Vale e Azevedo no Benfica?
Era o oposto de Pinto da Costa. Em três anos no Benfica, nunca o vi. A meio da época de 2002/03 foi emprestado ao V. Setúbal. Imaginamos que com a intenção de jogar mais. Sim. A equipa do FC Porto estava a jogar muito bem e não havia razões para mudanças. Inclusivamente, senti que tinha o meu lugar na seleção nacional de sub-21 em perigo. Por isso, pedi para sair e gostei de ter percebido que os responsáveis do FC Porto queriam a minha continuidade. Mas acabei mesmo por ir para o V. Setúbal.

“Dizem que Jesus não fala bem, mas ele é pago para pôr as equipas a jogar futebol e para que os jogadores o entendam”

Depois de uma curta passagem de uma época pelo Derby County e de duas temporadas em que jogou pouco no Sp. Braga, mudou-se para o Belenenses, onde esteve entre 2006 e 2010. Como correu a experiência no Restelo?
Recordo a minha passagem pelo Belenenses com muito carinho. Deixei lá a minha marca e foi um clube que me marcou, até porque fiz bons amigos, dois dos quais já falámos nesta conversa, o Zé Pedro e o Silas, futebolistas com uma técnica impressionante e que tinham mais do que qualidade para representar um clube grande, o que não aconteceu.

No Belenenses foi orientado por Jorge Jesus. Gostou de trabalhar com ele?
Tudo o que se costuma dizer do Jorge Jesus corresponde com a realidade. É alguém que deixa marca nos jogadores, pela forma como gosta de treinar nos limites e pela paixão que dedica ao jogo. Claro que alguém tão intenso acaba por provocar algum desgaste nos grupos que comanda, mas confesso que gostei imenso dos dois anos que passei com ele. É alguém que nunca se cansa e gostaria de ter passado mais tempo com o Jorge Jesus pois teria estado mais perto do meu máximo ao nível da disponibilidade para o trabalho e da concentração. Dizem que ele não fala bem, mas ele é pago para pôr as equipas a jogar futebol e para que os jogadores o entendam. E isso posso garantir que acontece.

É verdade que Jorge Jesus o chamou de gordo na primeira vez que o viu numa pré-época?
Sim, é verdade (risos), isso foi depois de eu ter estado muito tempo parado. Estava o grupo todo reunido e ele saiu-se com essa, mas não foi nada dito com má intenção. E a verdade é que eu de facto estava com peso a mais, mas não tanto assim, pois lembro-me que rapidamente voltei à forma habitual.

Acabou a carreira em equipas de divisões secundárias. O que fez depois de deixar de jogar futebol, em 2015, na Ovarense?
Tive como grande objetivo valorizar as minhas competências académicas e concluí o 9º, 10º, 11º e 12º anos. Tirei um curso de marketing, porque o saber não ocupa lugar. Entretanto, fui treinador de futebol feminino no Cesarense e na Ovarense e adjunto das equipas masculinas do Sanjoanense e do Cesarense, onde estou agora. Sou também comentador no Porto Canal e passo muito tempo com os meus filhos.

Ambiciona construir uma carreira de treinador?
Vamos ver. Há grande concorrência, não é fácil. Mas tenho gosto pelo treino e acho que tenho algum jeito. Enquanto futebolista, comecei por cima e acabei por baixo, pode ser que agora seja ao contrário. Mas confesso que detesto tudo o que está à volta do jogo em Portugal, tanta conversa “de tanga”. Vamos ver.

Artigo de
André Cruz Martins

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